CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

16/09/2021

18:41:39

OLHARES

OLHARES
  É um casal do Rio, da Zona Sul, mas fugiram para as montanhas. Moram numa casinha de varanda na curva de um rio de águas clarinhas...

                                                 

           ...Fazem compras na vila, leem muito, admiram o céu de estrelas que é só deles e se conectam com o mundo pela internet. Estão felizes. Às vezes ela fica silenciosa, amuada. Aí se torna mais ativa, muda móveis de lugar sem pedir ajuda a ele, mas se ele não ajuda, ela diz coisas ácidas. Por mais que faça ele percebe o tempo fechar. As panelas batem, a irritação dela vai às nuvens e, logo logo começa a cobrar coisas que ele devia ter feito mas ainda não fez. Então ele a convida para sair. Vêm ao Rio. Passeiam pela Dias Ferreira, rodam em algum shopping, jantam num restaurante japonês, caminham pelo calçadão na manhã de sábado e assistem a uma peça à noite. Depois ela mesma quer voltar. E volta mansa, satisfeita como sempre, doida pra “queimar uma carne e tomar uma caninha”.

            É um casal bacana. De vez em quando vou até lá degustar o tempo com eles, além da caninha. 


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            Ela passa e não me cumprimenta. Vai de mão dada com o namorado. Ela me viu, mas fingiu não ver. Por que fez isso? Talvez esse meu jeito largado, bebendo sozinho numa mesa de bar na calçada, não recomende a uma senhora cumprimentar-me. É comum as mulheres baixarem os olhos e apressarem o passo diante de um boteco com esses olhares parvos, devassos, desembuchados pelo álcool. O namorado poderia querer saber de quem se trata. Obrigá-la a um desvio ou mentira. Mas acredito ser outro o motivo. Ocorre serem muito práticas as mulheres; e nós, homens, muito românticos. Tornei-me nada. Uma coisa sem nenhum interesse prático. Algo a ser esquecido. É semelhante à situação de alguém que consegue uma posição melhor do que a anterior, à qual deve dedicar-se, pois o futuro mostra-se promissor. Mas fixo o olhar nela e ela pressente. Acredito perceber um ligeiro tremular em seu espírito (sou um coração romântico e nada presunçoso). Penso coisas simples e doces. Vejo-a nas praias de Búzios, queimada pelo sol, afogueada e risonha. Os cabelos quase sempre presos, o carinhoso olhar minhoto. Dois verões inteiros juntos com um ano no meio. Mas, talvez, ela tenha razão: foi há tanto tempo... Somos agora um jovem senhor e uma jovem senhora. O namorado é bem mais velho, conheço-o de vista. Com certeza que a bermuda e a camisa foram presentes dela, não combinam com o jeitão dele.  Se bem a conheço, ela vai mudá-lo. Mulheres adoram doutrinar a gente. É... é melhor mesmo fingir não me ver. Recordo nossos momentos após a praia, mais “calientes” do que o sol. E depois me pedia para recitar Camões e a “Animula, Vagula, Blandula”, me chamava de “terna alminha minha”. Agora passa nessa frieza, agarrada ao futuro que eu mísero e lírico poderia ameaçar. Devo ter virado aquela coisa que as mulheres chamam de “traste”. Mais prática do que o porquinho de macacão. E talvez eu esteja com uma dorzinha de cotovelo... 


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            Era um senhor, talvez sessenta ou pouco menos. Entrou na casa lotérica parecendo contrariado. Eu estava na fila, aguardando a minha vez. Ele pegou um volante, olhou com indiferença, quase desprezo, fez que ia sair, mas não foi, olhou para os lados, tirou do bolso uma caneta e começou a preencher os números. Depois entrou na fila. Mostrou-me o volante e perguntou com certo desdém:

            ─ É assim que se preenche isto?

            “É”, respondi. Ele batia com o volante na perna, impaciente, pouco à vontade, falando para si e para possíveis ouvintes:

            ─ Nunca fiz jogo, nem sei como é isto. Sempre trabalhei na minha vida, nunca me envolvi com isto.

            Continuou na fila, resmungando, aborrecido, parecendo ter desprezo por tudo à volta. E, talvez, cheio de esperanças no coração. Angustiadas esperanças.

 

            

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