CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

18/06/2022

08:39:22

QUASE NOSTALGIA

QUASE NOSTALGIA
Caminho sobre paralelepípedos quentes desejando pisar a terra sob eles. Preferia quando as ruas eram de terra. Pode parecer nostálgico, mas é simples questão de gosto. Prefiro ouvir o som dos cascos na terra ao barulho de motocicletas sobre o calçamento. E quando chovia, quando os primeiros grossos pingos atingiam o chão, a terra exalava um perfume que nunca mais se sentiu. Passo diante da casa fechada de Maria de Lourdes. Lembro-me de suas coxas nas minissaias. Eu ainda era uma criança, mas lembro. Umas coxas brancas e grossas com pintinhas vermelhas na parte de trás. Miranda era o “pão” da cidade; conseguiu emprego na indústria química e levou para sempre as coxas de Maria de Lourdes. Na varanda da casa dela ainda estão as cadeiras  e a mesinha de ferro com tampo de vidro. Na sombra fresca daquela varanda, Maria de Lourdes exibia as coxas com as pernas cruzadas enquanto passava esmalte nas unhas com a mão pousada sobre a mesinha.  Eu parava em frente ao portãozinho e dizia uma bobagem qualquer só para ficar olhando.

              Sigo no passado. Percebo um cavaleiro que passa trotando. Ouço o som abafado dos cascos na terra. Foi na casa ao lado que morreu o velho Abdon. Nunca esqueci seu rosto com algodões enfiados no nariz. Dias depois disseram tê-lo visto perambulando à noite pelo quintal. Seu Abdon era proprietário de um dos poucos automóveis da cidade: um Citroen preto, daqueles que não capotavam de jeito nenhum. Havia também o Plymouth do farmacêutico, o Dauphine da mulher do médico, um Jeep verde do tempo da guerra e dois ou três caminhõezinhos Ford e Fargo. Às tardes havia sempre um vento. Mexia com as árvores da praça, encrespava a superfície do laguinho e criava remoinhos na poeira da rua, mas ninguém ligava para isso. Houve uma tarde em que esmurrei o garoto que chamou minha mãe de “boa”. Depois o irmão mais velho dele tentou me pegar para me esmurrar também. Alguém disse para eu chamar meu pai, mas preferi me mandar. Era de noitinha. Entrei pelo corredor da casa de Maria de Lourdes e pulei para o quintal do seu Abdon. Disparei de olhos fechados para não vê-lo por ali com os algodões enfiados no nariz. Saltei outro muro e ganhei a rua detrás. Tinha um garoto pretinho vendendo cuscuz num tabuleiro de alumínio. Eu ia comprar uma fatia, mas um amigo me puxou pelo braço. Disse-me para não fazer isso. Então fomos espiar pelas frestas da casa da mulher que fazia o cuscuz. Era quase noite, mas o lampião na cozinha deixava ver as silhuetas no quartinho. A mulher estava ajoelhada na frente de um homem. Segurava o pau dele que saía da braguilha. Esfregava com as duas mãos e botava o pau na boca. Ficamos olhando aquilo até a hora em que o homem deu dinheiro para a mulher. Depois mandamos umas pedradas na janela de tábuas da casa e saímos correndo pelo mato.

            As peras mais suculentas davam nos pés do quintal de D. Santa. Eu costumava passar por lá para roubar umas peras, mas um dia dei de cara com D. Santa trepada num pé colhendo seus frutos. Ela me pediu para ajudar e eu fiquei embaixo ajudando. D. Santa usava um short  largo de fazenda listradinha. Ela estava com um pé no galho de baixo e o outro no galho de cima. Eu olhava e via sua calcinha branca. E uns tufos negros e grossos que saíam pelos lados da calcinha. Foi a primeira vez que vi uma coisa daquelas. Depois contei esse segredo para o meu melhor amigo. Contei que tinha visto a “aranha cabeluda”  de D. Santa. Ele contou para outro garoto e chegou um tempo em que todos os garotos contavam que eu tinha visto a “aranha cabeluda” de D. Santa. Minha vida se tornou um inferno quando souberam desse negócio lá em casa.

            Às vezes chegavam umas senhoras para tomar café com biscoitos e conversar com a minha mãe. Tinham aquele jeito de falar do Norte Fluminense, que não termina nenhuma palavra no diminutivo nem no gerúndio e colocam um “sá?” ou um “né?” no final de cada frase. Conversavam sobre programas de televisão. Sabiam que os atores eram “frescos”, falavam de assombração, sobre a vida dos outros, de receitas de doces e sobre o padre espanhol que jogava futebol e parecia artista de cinema. Minha mãe sempre me chamava e me apresentava. Sorriam para mim, apertavam minhas bochechas, elogiavam meus olhos e faziam comentários sobre minhas orelhas:

            ‒ Orelhas grandes, sinal de inteligência!

            Eu saía dali e me enfurnava no meu quarto. Entre outras coisas, ia ler a Enciclopédia Trópico. Deve ter sido num dia assim que li sobre o suplício de Marcantonio Bragantin, esfolado vivo numa praça de Famagosta. Aquilo me impressionou, provocou outros estudos e me deixou com um pé atrás contra seu Fuad da loja. Pode ou não ter sido num dia assim, pois sempre, após as maiores aprontações, eu me trancava em leituras no quarto como se estivesse num mosteiro medieval.

            Passa por mim a motocicleta estrepitante. Há muito não vinha aqui. Está tudo mudado. Penso que Maria de Lourdes deve ser uma boa avó. Penso nos adultos daquela época e acredito ser mais velho do que todos eles agora. Acho que todos se foram. Só existe a casa fechada de Maria de Lourdes e uma ou outra fachada decrépita ou transformada. Não tenho a sensação de estar de volta. Permaneço melhor em sonhos nostálgicos. O sol bate nas minhas costas e desenha minha silhueta numa parede. Examino-me. Viro um pouco pra lá, um pouco pra cá. Olho reto para a silhueta. Minhas orelhas me parecem bem proporcionais.

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