CARLOS ROSA MOREIRA
CARLOS ROSA MOREIRA
Membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Academia Niteroiense de Letras e da Associação Niteroiense de Escritores. Tem oito livros publicados, todos de crônicas e contos. carlosjrmoreira6@gmail.com

Por: CARLOS ROSA MOREIRA

18/11/2021

07:18:00

PAULISTÂNIA

PAULISTÂNIA
Acordávamos à noite. Pelo menos, para mim, aquilo era noite. Enquanto me revirava na cama, todos já estavam de pé, cada um sabendo o que devia fazer e agindo como se lá fora houvesse um sol a brilhar, em vez de escuridão e estrelas. Eu quase não acreditava. Olhava o pedaço de papel que tapava o buraco da veneziana a debater-se com o vento gelado da madrugada, como se fosse um inseto capturado numa teia a bater as asas em desespero. O vento frio chegava no começo de cada noite e no meio de cada madrugada, agitava o papel e aquele ruído parecia um marcador de tempo a indicar a hora de dormir e a de acordar...

...Nos primeiros dias de minha estada eu era o último a tomar o café da manhã, mas me esforcei e passei a acompanhar a família. Era um tatuí longe do mar, hóspede no rancho do amigo nos rincões da borda entre São Paulo e as Gerais. No início, a chegada do estranho causou certo desequilíbrio no dia a dia da família, mas logo voltaram a sua forte rotina. A mãe pouco falava, a não ser para trocar rápidas palavras com Antonieta, a filha; o pai desaparecia a cavalo ou a pé; e meu amigo caiu num quase mutismo e numa sanha de trabalho como se tivesse de deixar prontas naquele seu mês de férias todas as necessidades da família. Eu procurava ser um hóspede útil.  Ajudei a cavar silo no barranco, a tirar chifre de vaca, fui assassino coadjuvante de um porco e ainda o pelei depois, puxei café no terreiro, auxiliei Antonieta a espalhar roupa no coradouro, cortei lenha, corri atrás de galinha para torcer o pescoço e fiquei ilhado sobre uma rocha, em torno da qual grasnava furioso um bando de sanguinários gansos. Mas gostava mesmo de me perder na contemplação do vale imenso que cercava o platô onde se assentava o rancho. Das distantes montanhas azuis lá dos confins do vale, soprava o vento trazendo o alfa e o ômega de cada dia daquelas pessoas. Além do vale, havia os olhos de Antonieta, assustadiços como os de uma gazela fugitiva.  Às vezes deixava a família naquela faina silenciosa e ia passear pelos caminhos. Era inverno e os pendões branco-arroxeados do capim-gordura dançavam com a brisa fria. Caminhava quilômetros na estradinha de terra avermelhada a contornar as colinas como um lanho sinuoso. Avistava uma ou outra casa lá embaixo no vale. Certa vez passei por um ranchinho, onde o morador comia com o prato na mão:

            ‒ Bom dia! Posso passar por aqui?

            ‒ Pode. De onde você vem?

            ‒ Venho daquele lado de lá – disse eu, apontando o rumo

            ‒ É o moço que veio do Rio de Janeiro com o fio do Antônio?

            ‒ Sou eu mesmo.

            ‒ Tá servido o arrlmoço ?

            Eram nove horas da manhã.

            ‒ Muito obrigado, bom apetite. Té logo.

            ‒ Vai com Deus.

            Qualquer novidade se espalhava naquele aparente isolamento, até mesmo a chegada da minha insignificante pessoa; só eu não sabia de ninguém. Nem mesmo sabia como conversar com a arredia Antonieta e, muito jovem, não ousava romper o que me parecia ser o bloqueio de seriedade da família. Por causa das minhas caminhadas, meu amigo contou que era comum, nos velhos tempos, seu avô e seu tio viajarem cerca de dez léguas a pé, guiando um burro carregado de produtos do rancho para vender lá para as bandas de Pouso Alegre. Naquele dia seu Antônio quebrou o mutismo e puxou conversa comigo após o almoço. E eu ouvi na voz baixa e profunda daquele homem com olhos de sabujo cansado, a história real da novela Dente de Ouro, de Menotti Del Picchia.  O bom homem procurava impressionar o garoto da cidade, fazendo mais cava a voz e mais impressionante o olhar, enquanto relatava quase como personagem as façanhas do facínora e seu tenebroso colar de orelhas decepadas. A história eu havia lido e foi bom ouvi-la naquele jeito de falar de um autêntico caipira.

            Houve uma noite em que fomos à cidadezinha. Tomávamos cerveja num bar em frente à pracinha. Eu pensava nos olhos castanhos de Antonieta, que me pareciam estar sempre à beira de uma comoção, como se um turbilhão de sentimentos apertassem sua alma. Jamais percebera tamanha fragilidade em alguém. Grupos de moças e grupos de rapazes se espalhavam pela pracinha. De repente, sem que houvesse um sinal, os rapazes começaram a caminhar num sentido contornando a pracinha; e as moças fizeram o mesmo, em sentido contrário, de maneira que se cruzassem e se olhassem. E os grupos foram crescendo, até haver verdadeira multidão de machos e fêmeas a passarem uns pelos outros para lá e para cá. Assim conheci aquele modo de fazer a corte, vindo da velha Ibéria, guardado pelo povo daquela região como as palavras e a sua forma de pronunciá-las guardavam antiguidades da Língua.

            Quando retornamos ao rancho, encontrei Antonieta lendo sob a luz de um abajur. Olhei de soslaio, era O vermelho e o negro.

            ‒ É só um oportunista, esse Julien Sorel, não?

            Ela me olhou bruscamente, mas logo o olhar serenou. Eu descobrira a brecha. Conversamos sobre o livro e estendemos o assunto percorrendo muitas leituras de nossas jovens vidas. Antonieta era apaixonada por Literatura. Então chegou a hora indiscutível de dormir e eu fiquei a pensar se ela pensava em mim lá na escuridão do seu quarto. Haveria só o dia seguinte, no outro, à tarde, eu iria embora.

            Quando o vento da madrugada agitou o papel da veneziana e ele se debateu feito um inseto, deixei a cama num pulo. Dei um bom dia sorridente a todos e procurei o olhar de Antonieta. Depois me propus a rachar lenha e a esticar roupa no coradouro. Mas, à tarde, alguém veio avisar da morte de um vizinho e todos partiram para o velório, menos eu. À noitinha o vento retornou e o inseto de papel começou a agitar as asas. Fazia frio e aticei o fogo na lenha do fogão para aquecer a água do banho. Enquanto me preparava senti os olhos arderem, e percebi fumaça na casa. Corri para a cozinha, mas, devido à fumaceira, tive de recuar. Pus um pano no rosto e tentei mexer no fogão, mas saiu um fogaréu danado lá de dentro e eu me mandei da cozinha, abri todas as portas e janelas, e saí da casa. Em pleno desespero, sentei-me numa pedra a apreciar minha ótima atuação como hóspede: incendiar a casa do meu amigo! As portas e janelas abertas exalavam rolos de fumaça. Aquilo sim era uma façanha! Eu me atiraria de joelhos aos pés daquela família, o que mais poderia fazer? Enquanto pensava nisso, apareceram os faróis do carro na porteira do rancho. E percebi que aceleraram, pois o quadro avistado deve ter feito aqueles corações quase explodirem.

            ‒ Acho que botei fogo...

            Meu amigo e seu pai entraram correndo na casa. Pouco depois me chamaram e mostraram um tacho de grãos verdes de café esturricados. Estavam num compartimento do fogão a lenha e se incendiaram quando aticei o fogo. Lenha verde, fumaça na certa. Sorriram e me tranquilizaram, e eu me senti mesmo um tatuí longe do lar.

            No dia seguinte, à tarde, fui embora. Ficaram lá naqueles rincões os olhos caipiras de Antonieta. Deixando em mim a lembrança de um mundo que, talvez, já se tenha modificado. 

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