16/12/2016 - 08:42h - Autor: George dos Santos Pacheco

Pássaro Ferido

Pássaro Ferido

Basta estar vivo, é o que dizem. De forma bem humorada, ouvi numa palestra que “a vida é fatal, e transmitida sexualmente”. E é verdade mesmo. Por mais que vivamos sem nos dar conta disso – ou tapando os olhos com os dedos parcialmente abertos, a única certeza é de que não sairemos vivos daqui. Eventos como o acidente com o avião que transportava a equipe do time de futebol da Chapecoense talvez aconteçam para nos lembrar disso. Não somos deuses. Reza a lenda de que, na Roma antiga, quando um comandante ganhava uma batalha importante, percorria a cidade no chamado “triunfo romano” – parecido quando um atleta ganha uma competição importante e desfila no carro do Corpo de Bombeiros. Junto dele, um escravo sussurrava no ouvido do vitorioso: “Memento mori” (Lembra-te de que és mortal).

Talvez seja um modo fatalista de ver as coisas, mas não consigo enxergar de outra forma. Tudo tem um começo e um fim. O que torna tudo diferente é o intervalo entre as duas pontas. John Green em seu maravilhoso “A Culpa é das Estrelas” disse que “alguns infinitos são maiores do que outros” e isso tudo pode soar insensível para alguns, mas é assim que a vida é. Enquanto escrevo isso, meus filhos assistem desenhos na TV e muitos filhos esperavam seus pais, que se despediram empolgados para um jogo importante. “Papai vai lá rapidinho e volta tá?”. Eles não voltaram. E por mais que as pesquisas apontem para cerca de 160 mortes no trânsito, todos os dias – quase o dobro dos que morreram no acidente da Chapecoense – isso me entristece.

Para mim não importa, neste momento, a estatística das mortes no trânsito.

Foi triste, foi chocante e continua a me chocar toda vez que me lembro disso. Tanta gente jovem que se foi de uma hora para outra – e por conta de negligência. Mortes em massa me incomodam tanto quanto a de pessoas próximas, porque penso nos que ficam. Nos filhos, nos pais, nas esposas e maridos. E também porque isso me lembra que também sou mortal.

Todos os dias, ao sair para trabalhar, me despeço de minha mulher e meus filhos pensando em meu retorno. “Papai vai lá rapidinho e volta tá?”. E se eu não voltar? Aliás, e quando eu não voltar? Porque isso um dia fatalmente vai acontecer e acho que eu não estou preparado para isso, como também acredito que todos aqueles que embarcaram naquele pássaro de ferro não estavam.

O que fazer para diminuir essa sensação angustiante?

Não sei, caro leitor. Talvez seja uma tarefa diária, um exercício de tentar ser melhor a cada dia e procurar ver as coisas como se fosse a primeira vez. Em um texto magnífico de Otto Lara Resende ele fala sobre isso: “Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos”. Mesmo não sabendo o que fazer, recomendo ver as coisas como se fosse a primeira vez – e não a última, como disse Lara Resende. Beije sua mulher como se fosse a primeira vez, brinque e abrace seus filhos como se fosse a primeira vez. Aperte a mão de seus amigos, como se fosse a primeira vez. Porque um dia nosso combustível vai acabar em pleno vôo e não vai ter nenhum locutor de futebol narrando o velório ao vivo na TV.

Lembre-se que areia já está descendo na ampulheta. Lembre-se de que também é mortal.


georgespacheco@outlook.com

 

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