Buscando escrever uma crônica para este espaço resolvi fazer uma reflexão sobre eu mesmo. Em um exame de consciência, objetivando saber o que penso, cheguei a diversas conclusões decorrentes do balanceamento que fiz sobre o que há de errado no meu comportamento. Cheguei, assim, a conclusão de que sou um tanto prosa, vou mais longe, um tanto “besta”, no sentido que, geralmente, dão a essa palavra. Avaliei que sou muito crítico e que ponho defeito em tudo, como se eu fosse um perfeccionista de plantão. Em verdade estou sempre com um pé atrás, no dia a dia dos meus relacionamentos pessoais. Concluí, também, que sou um pouco invejoso em certos casos. Não raro, tenho a mania de me julgar superior, sobre vários aspectos, nos confrontos que a vida me obriga a enfrentar, invariavelmente, como opiniões, modo de pensar, de agir, etc.
Outro hábito que felizmente estou perdendo é de discutir religião querendo sempre fazer prevalecer o ecumenismo que adoto. Sem poder explicar o motivo, não faço amizades facilmente e, após as primeiras impressões, descarto certas pessoas que me são apresentadas. Constantemente, sou vítima também de um complexo de inferioridade, sem causa aparente, mas que me torna esquivo em certos eventos. De fato sou um tanto prosa, mas assim ajo por força do meio em que vivo onde todos são, também, muito cheios deles mesmos. Apenas me nivelo a eles para não me julgar inferior a qualquer deles. É uma atitude estudada, mas embora contra a minha vontade, sou forçado a viver assim. Quanto a ser “besta”, pensando melhor não concordo com este adjetivo, até porque me considero delicado com todos que me rodeiam.
No que tange a ser crítico, acho que este não é um defeito só meu. Pois vejo em todos estas qualidades. Quanto a mim, confesso que não sei ficar acomodado, sem reação diante do mundo em que vivo. Diariamente vejo políticos corruptos, funcionários desonestos, autoridades incompetentes frente à violência urbana e até coniventes com elas. Vejo a honestidade ser considerada uma virtude e não um dever.
Quanto à inveja, há sim meia verdade. Sinto, de fato, inveja dos homens honestos e cultos que atravessam a vida dando exemplos de dignidade e objetivando sempre o bem-estar do próximo. Invejo sim meus amigos que prenunciam, desde já, uma vida de estudos, longe de vícios e planejando ser útil à sociedade. Neste passo, devo explicar que este tipo de inveja é mais admiração, posto que eu também tentei ser assim, mas confesso ter me desviado um pouco da rota.
Quanto a me julgar superior, isto é uma grande verdade. Volta e meia sou cometido desta vaidade idiota por me comparar aos homens de mau caráter, golpistas e corruptos. Tenho que confessar também que disponho de um vasto círculo de amigos aos quais tento, honrosamente, nivelar-me. Com relação a religião, sendo eu uma mistura de católico com espírita, não tenho argumentos para discutir com os que creem numa só religião, e com relação aos ateus, jamais discuto, apenas respeito o que pensam. Agora, meus complexos de inferioridade. Acontecem sempre em que me encontro em depressão e não são raros, ocasião em que me sinto diminuído e inútil. Apenas um estado patológico e inevitável, mas que tenho suportado sempre e sacudindo a poeira.
Eis aí o que um homem pode pensar sobre si mesmo, numa autocrítica fajuta, querendo passar como cidadão perfeito, pretendendo um passaporte para o céu.
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