O cãozinho Tom morou, por cerca de dois anos, no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília, onde tinha sempre a mesma rotina: conhecendo os horários dos velórios, nas horas marcadas ele adentrava os portões do campo santo e dirigia-se às capelas. Escolhia cuidadosamente um velório - não se sabe bem com qual critério - e esperava que saísse o cortejo. Acompanhava, a uma distância respeitosa, o grupo até o sítio em que seria enterrado o de cujus, e mantinha-se atento a todo o ritual, que conhecia muito bem. Na hora da descida do corpo à terra, ele dava um latido triste, e aguardava que os acompanhantes do morto fizessem o caminho de volta, sempre atrás deles.
Imediatamente, escolhia outro velório, e repetia exatamente os mesmos passos. E assim passava os seus dias.
Ele só não cumpria a obrigação quando desconfiava que era vigiado. Havia sempre alguém interessado em ajudá-lo. Várias pessoas se prontificaram a resgatá-lo daquele lugar, mas ninguém teve sucesso, porque o Tom era sempre mais esperto e conseguia esconder-se. Nesse dia, ninguém o via no Cemitério.
Dormia em vários locais, tinha uma estratégia de fuga planejada. Comia o que lhe davam os ambulantes, de quem era bem conhecido. Mas nunca se aproximou de ninguém, a ponto de deixar-se tocar ou prender.
Os coveiros contam que o seu dono foi enterrado ali, e Tom estava presente. Quando a família foi embora, ele não quis entrar no carro. Não houve meio de o dissuadir a deixar o local onde tinha visto o seu dono pela última vez. Supõe-se que, a cada enterro que acompanhava, esperava que o dono reaparecesse e, quando isto não acontecia, voltava acabrunhado para dar início a outra busca. Daí o vai-vem dele entre as capelas e os locais dos túmulos. De falta de persistência não pode ser acusado. Nem de fidelidade.
Mas nem tudo eram flores para ele. Os guardas do cemitério tinham ordens da Administração para afugentá-lo, e o faziam com brutalidade, chegando a jogar bombinhas em sua direção. Podia-se perceber que ele odiava os homens de farda, passava bem longe deles, nas suas andanças.
O Tom tornou-se famoso entre os frequentadores do Cemitério, e algumas reportagens foram feitas sobre a sua odisseia. Foi apelidado de “O Anjo da Capela”.
Ao tomar conhecimento desta história, eu fui, com a minha irmã e duas amigas, tentar um contato com ele. Passamos uma tarde no Cemitério, mas Tom deve ter desconfiado e não apareceu.
Meses mais tarde, fui procurada pela protetora Graça Perdigão com a intenção de resgatarmos o Tom. Ela já tinha conseguido com o seu veterinário uns comprimidos que deixariam o animal mais relaxado, e lá fomos, munidas com pedacinhos de fígado, que lhe atirávamos, com o remédio.
Acompanhamos pacientemente, vários enterros, sempre a uma distância prudente, para que o Tom não se apercebesse da nossa presença. Mas ele finalmente percebeu, e fugiu. Saiu em disparada do Cemitério e a preocupação maior foi que ele ficasse tonto em meio ao trânsito caótico daquele final de Asa Sul.
A Graça, eu e o meu auxiliar percorremos toda aquela região, à sua procura, em vão. Eu fui embora, mas a Graça ficou por ali, distribuindo cartões com o seu telefone, e prometendo recompensa a quem desse notícias dele.
Ainda não tinha chegado à casa, quando a Graça me liga, dizendo que o Tom estava deitado numa das capelas, tremendo e aparentemente com a pressão baixa, resultado do tal remédio. Nesse momento, ela já estava com um amigo, o Franco, que a ajudou a pegar o animal, e trouxeram-no para minha casa.
Animal bonito, de pelagem branca, comprida, mas muito embolada. Muito resistente à nossa aproximação, a intenção dele era, claramente, fugir daqui, para voltar à sua rotina habitual. Com muito cuidado, paciência e carinho, fomos mudando os padrões de comportamento dele, fazendo-o sentir que havia uma outra vida para além daquela que ele tinha vivido nos últimos dois anos.
Levou algumas semanas para ele relaxar e aprender a confiar em nós. O Tom foi o caso mais difícil que eu vivi, para conseguir que interagisse conosco.
Hoje, entretanto, ele me segue como se fosse a minha sombra. Onde eu estou, lá está ele, olhando para mim. Se saio, ele fica na frente da chácara, à minha espera, não importando por quanto tempo. Acho até que, se eu não voltasse mais para casa, ele nunca mais sairia daquele local, à minha espera.
Afinal, a característica marcante dele não foi sempre a fidelidade ao seu guardião?
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