Sempre tive cães, sempre gostei de cães. Perdi o Blue para a cinomose, numa época em que as vacinas não eram muito confiáveis e foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Cuidamos dele até o último momento, ajudando-o a levantar-se para fazer suas necessidades, dando comida na boca.
Nena, minha esposa também gosta muito de cães, mas, quando nos casamos, morando em apartamento tivemos que nos restringir a paparicar os dois dobermans de meus pais, quando íamos à casa deles. Só onze anos depois, Anita e Diana entraram em nossas vidas. São duas daschunds (COFAPs) e eram presentes de aniversário para ela, mas me adotaram de tal forma que hoje, quando brincamos sobre uma hipotética separação entre nós, não é pelo patrimônio que brigamos, mas pela guarda das “meninas”. Por causa delas, para que tivessem espaço para correr e brincar, resolvemos construir nossa casa. Já instalados, outros cães juntaram-se à matilha.
Quando a Nena começou a fazer trabalho voluntário junto à ProAnima, como anunciante dos animais para adoção, vez por outra, me falava de algum caso que passava por suas mãos. Num desses, me interessei. Temos rottweilers e é uma raça que aprendi a admirar. Pois o animal anunciado era um macho da raça, adulto, abandonado e vítima de maus tratos. Não conseguimos contato com o anunciante e eu já ia desistindo da ideia de adoção, quando surgiu outro, cujo dono pretendia se mudar para um apartamento. Era uma caridade menor, mas ainda assim, resolvemos adotá-lo. Naquela tarde mesmo, Lampião chegou, trazido pelo dono e seu filhinho. O garoto, em pé, era da altura do cachorro, mas o abraçava e beijava e chorou muito quando foram embora, deixando o perplexo cachorrão para trás, com a recomendação de que o levássemos ao veterinário para verificar uma ligeira claudicagem da pata traseira direita, talvez conseqüência de um prego ou caco de vidro. Dito e feito. Mas o diagnóstico foi menos alentador do que uma simples ferida: um câncer ósseo que já havia lhe devorado um dos dedos e alcançava outros.
Nossa primeira decisão foi devolvê-lo. Não nos sentíamos preparados para lidar com um animal que não conhecíamos bem, cujas reações, agravadas pelo sofrimento e a dor, podem ser inesperadas e agressivas. Enquanto tentávamos contato com seu dono, Lampião foi nos conquistando. Era um cachorrão manhoso, carente por carinho e atenção e muito obediente. Num feriado, o levamos até o córrego que passa ao fundo de nosso lote. Embora ele estivesse torturado pela unha, que acabou arrancando na noite seguinte, brincou como um filhote: correu, nadou, cavou e rolou na areia, um grande e feliz cachorro à milanesa. Às vezes, rosnava para nós quando ameaçado ou ao sentir dor, mas bastava um "não" contundente para que ele voltasse à sua condição submissa. Claro que evitávamos nos pôr em riscos desnecessários. A focinheira fazia parte do curativo e eu tinha sempre a mão um aparelho de choques para inibir qualquer tentativa de ataque. Logo essas precauções se mostraram desnecessárias: Lampião tinha uma ótima índole, integrou-se à nossa matilha quase automaticamente e, quando precisava se impor sobre os outros cães, nunca o fazia com agressividade exagerada. Seus grunhidos de advertência eram suficientes para impor respeito.
Decidimos ficar com ele e demos ao nosso novo amigo o melhor final de vida possível: carinho, cuidados, alimentação de qualidade e companhia. Por algum tempo, não fosse a dificuldade em pisar, ele parecia uma cachorro normal e saudável. Depois, após algumas tentativas de tratamento com cirurgia, a doença foi se alastrando e restringindo seus movimentos. Quando percebemos que o sofrimento havia se tornado muito mais significativo que as alegrias, o levamos à clínica e ficamos ao seu lado até o último suspiro.
Ainda lamentávamos sua partida, quando, numa visita à chácara da Gy, a Nena conheceu a Brenda, outra rottweiler. Esta tinha fama de má. Foi criada por um policial e recebia qualquer visita com latidos monstruosos, espumando e gotejando saliva à aproximação de estranhos. Vivia confinada em um cercado, sem contato direto com outros cães ou pessoas. Era um espaço até bem maior do que ela tinha na casa onde cresceu, mas, ainda assim, pequeno para seu porte. E, o que era pior, ela constituía-se em um problema para a Gy, dadas as dificuldades no seu convívio. Resolvi ir conhecê-la. À primeira vista, ela era mesmo assustadora. Porém, aos poucos fui me aproximando, avaliando seu comportamento, até que me senti seguro e entrei no seu canil. A Nena me contou depois que, enquanto eu estava lá dentro, brincando com ela que logo deitou-se de costas para que eu lhe coçasse a barriga, a Gy e seus ajudantes ficaram do lado de fora, apavorados, tentando manter os outros cães sob controle, temerosos de que ela pudesse ficar nervosa e me atacar. Em minha segunda visita, andamos um pouco pela chácara, ela na coleira, os outros todos presos em seus canis. A decisão estava tomada e, naquele dia mesmo, ela veio conosco para casa. Por precaução, a focinheira, já que a pusemos no banco de trás do carro, aquela boca enorme a centímetros de nossas orelhas.
Hoje, Brenda está completamente integrada à casa e à nossa matilha. Anda por tudo e convive com os outros cães. Já entendeu que as daschs são, inexplicavelmente, as donas do pedaço, mas morre de ciúmes das outras rotts. Também não tem muita paciência com os filhotes, mas, do mesmo modo que o Lampião, impõe os limites sem exagerar na força.
Focinheira? Agora, só na psicopata da Laila, que é uma das cadeirantes adotadas pela Nena e que acha que tem super poderes. Parte para cima da Brenda com ganas de morte. A negona? Olha de cima para aquela coisica que mal sabe latir e sai do caminho. Fazer o quê? Não quer magoar sua nova família e, apesar da Laila ser mesmo uma chata, parece ter quem a queira por aqui.
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