09/09/2011 - 17:01h

Rap atrás do muro

Ronaldo Duran é escritor e colabora nesta revista toda semana
ronaldo@ronaldoduran.com
São Paulo

Subia a rampa, a rua íngreme que leva da avenida para a favela. Na subida, parou. Atrás de si, um mundo de medo, mesmo para o morador calejado como ele. A trilha de trem, os bêbados, as bocas de tráfico. A sua frente, a Avenida cartão postal, com carros, ônibus, prédios de classe média alta.

Quando terminava a subida, pisando no calçadão, a liberdade parecia lhe soprar no rosto. E tinha a impressão de pertencer ao mundo de pessoas não-rotuladas de faveladas.

Às 17h30, chegava à cantina italiana. O entorno contava com vários bares, pubs, cachaçarias, clubes. O endereço badalado.

Na condição de barman, o jovem servia os garçons e clientes no balcão. Os colegas de trampo gostavam de sua prosa, de suas rimas. Apesar do velado preconceito contra Rap, a forma como o jovem barman trazia as letras desarmava as resistências.

Das cinco horas da tarde, trabalharia até onze e pouca. Chegar em casa, somente depois da meia noite. Os dias habituais de serviço seriam no fim de semana e feriado.

Descer a rampa, complicado. Durante o dia, o jovem via-se acometido de grande vergonha, sempre que atravessava a faixa de pedestre diante da rampa. Ao seu lado, muita gente. Por exemplo, uma menina que o atraiu e sorri para ele. Aí ela dobra para o ponto de ônibus e ele desce a rampa. Nesse momento, o jovem tinha a impressão que a menina se assustaria, teria pena ou qualquer sentimento que a distanciaria do mundo dele.

Durante a noite, o medo tinha a ver com o que encontraria até chegar ao barraco. Vielas sombrias, esgotos a céu aberto e as baratas estavam longe de amedrontar. O medo vinha das rodinhas de rapazes de cócoras. Um emaconhado podia cismar com ele. Tinha o risco de tiroteio na disputa de pontos da droga, ou da polícia dando busca no local.

Os donos da boca controlam quem entra e sai da favela. O jovem para eles era careta, espécie de trabalhador. E desde que não pisasse na bola nada teria a temer.

Todavia, o submundo nem sempre é tão racional e justo. Tendo sexto sentido aguçado, o jovem ia pisando em ovos, sem afrontar quem quer que fosse.  Quando não em casa nem no serviço, estava na biblioteca pública pegando livro de poesia ou nalguma praça a ler e compor.

Vivia arrumando pretexto para sair da favela. Primeiro, pelo medo que nele instalava. Segundo, pelos sinais de misérias que os olhos captavam em cada barraco, cada beco.

Lembra-se que começou a compor rap atrás do muro da sua escola, quando o professor faltava e havia aula vaga. Atrás do muro da escola havia uma praça. Em meio a árvores, banco de concreto, o local propiciava a paz para deixar a mente viajar.

Tinha dezesseis anos na época, quando cantava debaixo do chuveiro para escapar de ouvir a mãe pedir para parar de berrar. Aproveitava para cantar quando passeava num parque ou andava pela rua.

Em certa noite, o barman viu-se objeto de curiosidade de um cliente. Esse era dono de uma rádio e tinha boas relações na cidade. O empresário leu as letras do rapista e chamou o rapaz para ir a sua rádio. Ficou surpreendido com a desinibição do rapaz frente ao microfone. “Nada perco se investir nele”, com esse raciocínio o empresário abriu para o ex favelado uma oportunidade que apenas uma pessoa em um milhão tem.

Dali a dez anos, estaria fora da favela. A família dele morando em casa própria num bairro valorizado. O rapista conciliava shows e assédio de fãs e mídia com a ONG que criara e tocava, voltada a incentivar o lado artístico e educacional de favelados.

A sua energia em vez de ser gasta em noitada, mulherada, destinava para ajudar outros. “Se alguém acreditou em mim, é mais que um dever eu retribuir a chance que tive para outros que também dela precisam”, esse ideal é que o nutria na manutenção da ONG.





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