17/08/2011 - 0:00h

Um presentinho de Deus

Nova Friburgo

Sempre convivi com animais de estimação na minha casa, mas nunca tive

muita aproximação. Não maltratava, mas também não morria de amores por

eles.

Depois de adulta, cerca de uns treze anos atrás, uma aluna disse que queria

me dar um presente. Até então, normal porque já estava acostumada a ganhar

presentes no final de cursos ou semestres, tais como: chocolate, flores e

outros mimos. No entanto, ela me disse que seria um cachorrinho, pois sua

cadelinha iria parir e ela me presentearia com um. Eu morava em apartamento

e até então achava inconcebível alguém ter um animal dentro de um

apartamento. Na época, casada, falei com meu ex-marido e ele me

tranquilizou dizendo para pegarmos o cachorrinho e doarmos a alguém. Ele

nasceu e ela me ligou para pegarmos. Eu, sem querer sequer por a mão

naquela criaturinha pequena (um pinscher), o levamos, vacinamos,

compramos ração, etc. Nas primeiras noites ele chorava e eu sequer me

levantava. Meu ex é quem cuidava dele. Passaram-se os dias e não

encontramos ninguém para adotá-lo. Naquela época meu casamento já não ia

bem e eu não tinha a menor vontade de ir para casa ao final do trabalho.

Passadas cerca de duas semanas, ao chegar em casa ele veio

correndo ao meu encontro todo feliz. Aquela cena eu jamais vou

esquecer. Senti-me a pessoa mais amada e querida do mundo.

Para resumir, os dias se foram passando e nós dois nos

aproximando cada vez mais, ao ponto de colocá-lo para dormir no

meu quarto. Meu amor por ele foi crescendo a cada dia.

Infelizmente, eu acreditava cuidar muito bem dele e acho até que

o fiz, mas desconhecia os problemas de saúde que um cachorrinho poderia

ter. Ele tinha deslocamento de patela nas duas patinhas traseiras. Com nove

para quase dez anos o problema se agravou e, por forçar as dianteiras ele deu

hérnia de disco. Parou de andar e acabou dando infecção de urina. Por

excesso de amor, não tive coragem de deixá-lo no hospital. Tirei férias e

ficava cuidando dele. Mas por erro meu de querer cuidar dele e, creio, por

descuido do veterinário, ele ficou cada dia pior e tive que interná-lo. Entre um

exame e outro eles me recomendaram a eutanásia porque suas chances

seriam mínimas de sair bem da cirurgia e de voltar a andar. Fui para casa

desesperada. Pensei muito e não conseguia ter coragem. Sabia que ele

estava sofrendo, embora medicado o estado era grave. Resolvi fazer a cirurgia

com outra veterinária. Ele resistiu à cirurgia, mas na madrugada passou muito

mal e foi para o balão de oxigênio. De manhã eles me chamaram para dizer

que não havia outra saída se não a eutanásia

porque de toda forma ele não iria resistir e estava

sofrendo muito. Autorizei e foi feita com ele no meu

colo. A dor era tamanha que eu não tive coragem

de enterrá-lo enquanto o corpinho dele não

enrijeceu por completo. Doía como se tivessem

arrancado um pedaço de mim. Cheguei a

questionar Deus por levar meu filhinho querido e

não me levar também. Enfim, resolvi nunca mais

ter outro. Comecei a fazer um trabalho voluntário

que acabei por abandonar por falta de tempo. Mas

não aceitava a idéia de pôr outro no lugar dele. Um

dia (5 meses depois da morte do meu), uma pessoa conhecida, que sabia do

trabalho que eu fazia na ProAnima, me ligou dizendo ter pego um pinscher

que iria atravessar uma rua movimentada no Guara e fatalmente morreria,

mas que não podia ficar com ela, até porque a pequena estava doente, com

um tumor enorme na mama. Relutei, informei que a ONG não estava pegando

e que eu também não poderia. Mas ela insistiu que se eu não a ajudasse ela

teria que deixá-la de volta na rua. Diante disso eu resolvi ir buscá-la e ver o

que eu poderia fazer para ajudá-la. Levei-a para casa e constatei que o tumor

era realmente grande e já passava de hora de tirá-lo. Levei-a no veterinário, fizemos exames e resolvi fazer a cirurgia e depois tentar conseguir alguém

para adotá-la.

Naquele momento me passou um filme na cabeça.

Perdi um da mesma raça e cor, me senti a pior das

pessoas de culpa por não ter sabido cuidar a tempo

e, agora, me aparece outra com um problema de

saúde. Pensei, deve ser Deus querendo me mostrar

alguma coisa. Na minha cabeça pensava e penso

até hoje que Ele quis me dar a oportunidade de

salvar a vida dela já que eu não havia conseguido

com o meu. Também pensava que meu pequeno Tintim (que lá do céu, vendo

meu sofrimento) e também minha mãezinha (a perdi dois meses depois que

perdi meu bebezinho), estavam me aprontando colocando aquele serzinho

assustado no meu caminho. Enfim, ela fez a cirurgia e enquanto estava no

hospital consegui uma pessoa para adotá-la. Após sua recuperação fui levá-la

para conhecer a nova casa e a nova família. Havia apenas duas semanas que

estava comigo e a maior parte do tempo passou no hospital. No entanto, ao

chegar na casa ela grudou em mim de uma forma que não entendi, pois nossa

convivência havia sido pouca e sem muita aproximação. No entanto ela agiu

como se fosse minha há tempos e como se gostasse muito de mim. Sequer

quis ir no colo da nova dona, embora adore um colo. Naquele momento a

suposta nova dona me disse, “Edna,eu a quero muito, mas o jeito que ela está

com você vai sofrer muito até se acostumar.” Aquelas palavras foram

suficientes para eu entender que não poderia mais submetê-la a outro

abandono e nem eu queria mais ficar sem ela. Pedi desculpas e fomos para

casa. Eu estava aliviada e feliz. E nossa história começou. Meses depois

percebi que ela mancava de uma perninha. Fizemos exames e constatou-se

que ela tinha deslocamento de patela e rompimento de ligamento

(acreditamos ser resultado de maus tratos). Imediatamente autorizei a cirurgia.

Desta vez mais complicada e sem muita chance de bom resultado. Ela teve

que fazer várias sessões de fisioterapia . Gastei muito e minha família me

criticou por isso. Hoje eles já não falam mais nada. Uma sobrinha que me

criticava acabou adotando um virinha que estava abandonado e faminto numa

lanchonete entre Brasília e Goiânia e hoje é o filhinho amado dela.

Hoje, graças a Deus, embora a Bellinha ainda manque de vez em quando,

devido ao parafuso que foi colocado, ela tem qualidade de vida. Em março

passado fez três anos que esse presentinho de Deus está comigo. Amo-a

tanto quanto amo meu Tintim que agora vive no céu. Não consigo imaginar

minha vida sem ela. Cada momento ao lado dela soma-se aos momentos

mais felizes da minha vida, tal como era com ele. Minha maior alegria é

chegar em casa e encontrá-la escandalosamente feliz.

Ela se considera minha dona. Faço todos os mimos. Sei que exagero no amor

e com coisas materiais que não lhe fariam a menor falta. Mas isso me faz muito feliz. Sempre, se não todos os dias,agradeço a Deus pelo presentinho (pelo tamanho e não pela importância, pois é um grande presente)

e sempre digo a ela...”você é o presentinho de Deus pra mamãe”.

Se todos soubessem como a convivência com esses seres amados nos transforma em seres humanos melhores, poucos estariam abandonados. Mas para isso não basta tê-los por perto.

É preciso se entregar a esse amor tal como uma mãe ou um pai a um filho. É preciso abrir o coração ...o resto eles fazem . É simplesmente especial amar e ser amada por esses seres abençoados. Além dela, contribuo financeiramente com alguns protetores que fazem um trabalho lindo no resgate e cuidados com animais abandonados. É também uma forma de “adoção”. Adoção à causa, adoção de uma pequena parcela de responsabilidade por aqueles covardemente abandonados.  

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(Foto: Divulgação)





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