Sempre convivi com animais de estimação na minha casa, mas nunca tive
muita aproximação. Não maltratava, mas também não morria de amores por
eles.
Depois de adulta, cerca de uns treze anos atrás, uma aluna disse que queria
me dar um presente. Até então, normal porque já estava acostumada a ganhar
presentes no final de cursos ou semestres, tais como: chocolate, flores e
outros mimos. No entanto, ela me disse que seria um cachorrinho, pois sua
cadelinha iria parir e ela me presentearia com um. Eu morava em apartamento
e até então achava inconcebível alguém ter um animal dentro de um
apartamento. Na época, casada, falei com meu ex-marido e ele me
tranquilizou dizendo para pegarmos o cachorrinho e doarmos a alguém. Ele
nasceu e ela me ligou para pegarmos. Eu, sem querer sequer por a mão
naquela criaturinha pequena (um pinscher), o levamos, vacinamos,
compramos ração, etc. Nas primeiras noites ele chorava e eu sequer me
levantava. Meu ex é quem cuidava dele. Passaram-se os dias e não
encontramos ninguém para adotá-lo. Naquela época meu casamento já não ia
bem e eu não tinha a menor vontade de ir para casa ao final do trabalho.
Passadas cerca de duas semanas, ao chegar em casa ele veio
correndo ao meu encontro todo feliz. Aquela cena eu jamais vou
esquecer. Senti-me a pessoa mais amada e querida do mundo.
Para resumir, os dias se foram passando e nós dois nos
aproximando cada vez mais, ao ponto de colocá-lo para dormir no
meu quarto. Meu amor por ele foi crescendo a cada dia.
Infelizmente, eu acreditava cuidar muito bem dele e acho até que
o fiz, mas desconhecia os problemas de saúde que um cachorrinho poderia
ter. Ele tinha deslocamento de patela nas duas patinhas traseiras. Com nove
para quase dez anos o problema se agravou e, por forçar as dianteiras ele deu
hérnia de disco. Parou de andar e acabou dando infecção de urina. Por
excesso de amor, não tive coragem de deixá-lo no hospital. Tirei férias e
ficava cuidando dele. Mas por erro meu de querer cuidar dele e, creio, por
descuido do veterinário, ele ficou cada dia pior e tive que interná-lo. Entre um
exame e outro eles me recomendaram a eutanásia porque suas chances
seriam mínimas de sair bem da cirurgia e de voltar a andar. Fui para casa
desesperada. Pensei muito e não conseguia ter coragem. Sabia que ele
estava sofrendo, embora medicado o estado era grave. Resolvi fazer a cirurgia
com outra veterinária. Ele resistiu à cirurgia, mas na madrugada passou muito
mal e foi para o balão de oxigênio. De manhã eles me chamaram para dizer
que não havia outra saída se não a eutanásia
porque de toda forma ele não iria resistir e estava
sofrendo muito. Autorizei e foi feita com ele no meu
colo. A dor era tamanha que eu não tive coragem
de enterrá-lo enquanto o corpinho dele não
enrijeceu por completo. Doía como se tivessem
arrancado um pedaço de mim. Cheguei a
questionar Deus por levar meu filhinho querido e
não me levar também. Enfim, resolvi nunca mais
ter outro. Comecei a fazer um trabalho voluntário
que acabei por abandonar por falta de tempo. Mas
não aceitava a idéia de pôr outro no lugar dele. Um
dia (5 meses depois da morte do meu), uma pessoa conhecida, que sabia do
trabalho que eu fazia na ProAnima, me ligou dizendo ter pego um pinscher
que iria atravessar uma rua movimentada no Guara e fatalmente morreria,
mas que não podia ficar com ela, até porque a pequena estava doente, com
um tumor enorme na mama. Relutei, informei que a ONG não estava pegando
e que eu também não poderia. Mas ela insistiu que se eu não a ajudasse ela
teria que deixá-la de volta na rua. Diante disso eu resolvi ir buscá-la e ver o
que eu poderia fazer para ajudá-la. Levei-a para casa e constatei que o tumor
era realmente grande e já passava de hora de tirá-lo. Levei-a no veterinário, fizemos exames e resolvi fazer a cirurgia e depois tentar conseguir alguém
para adotá-la.
Naquele momento me passou um filme na cabeça.
Perdi um da mesma raça e cor, me senti a pior das
pessoas de culpa por não ter sabido cuidar a tempo
e, agora, me aparece outra com um problema de
saúde. Pensei, deve ser Deus querendo me mostrar
alguma coisa. Na minha cabeça pensava e penso
até hoje que Ele quis me dar a oportunidade de
salvar a vida dela já que eu não havia conseguido
com o meu. Também pensava que meu pequeno Tintim (que lá do céu, vendo
meu sofrimento) e também minha mãezinha (a perdi dois meses depois que
perdi meu bebezinho), estavam me aprontando colocando aquele serzinho
assustado no meu caminho. Enfim, ela fez a cirurgia e enquanto estava no
hospital consegui uma pessoa para adotá-la. Após sua recuperação fui levá-la
para conhecer a nova casa e a nova família. Havia apenas duas semanas que
estava comigo e a maior parte do tempo passou no hospital. No entanto, ao
chegar na casa ela grudou em mim de uma forma que não entendi, pois nossa
convivência havia sido pouca e sem muita aproximação. No entanto ela agiu
como se fosse minha há tempos e como se gostasse muito de mim. Sequer
quis ir no colo da nova dona, embora adore um colo. Naquele momento a
suposta nova dona me disse, “Edna,eu a quero muito, mas o jeito que ela está
com você vai sofrer muito até se acostumar.” Aquelas palavras foram
suficientes para eu entender que não poderia mais submetê-la a outro
abandono e nem eu queria mais ficar sem ela. Pedi desculpas e fomos para
casa. Eu estava aliviada e feliz. E nossa história começou. Meses depois
percebi que ela mancava de uma perninha. Fizemos exames e constatou-se
que ela tinha deslocamento de patela e rompimento de ligamento
(acreditamos ser resultado de maus tratos). Imediatamente autorizei a cirurgia.
Desta vez mais complicada e sem muita chance de bom resultado. Ela teve
que fazer várias sessões de fisioterapia . Gastei muito e minha família me
criticou por isso. Hoje eles já não falam mais nada. Uma sobrinha que me
criticava acabou adotando um virinha que estava abandonado e faminto numa
lanchonete entre Brasília e Goiânia e hoje é o filhinho amado dela.
Hoje, graças a Deus, embora a Bellinha ainda manque de vez em quando,
devido ao parafuso que foi colocado, ela tem qualidade de vida. Em março
passado fez três anos que esse presentinho de Deus está comigo. Amo-a
tanto quanto amo meu Tintim que agora vive no céu. Não consigo imaginar
minha vida sem ela. Cada momento ao lado dela soma-se aos momentos
mais felizes da minha vida, tal como era com ele. Minha maior alegria é
chegar em casa e encontrá-la escandalosamente feliz.
Ela se considera minha dona. Faço todos os mimos. Sei que exagero no amor
e com coisas materiais que não lhe fariam a menor falta. Mas isso me faz muito feliz. Sempre, se não todos os dias,agradeço a Deus pelo presentinho (pelo tamanho e não pela importância, pois é um grande presente)
e sempre digo a ela...”você é o presentinho de Deus pra mamãe”.
Se todos soubessem como a convivência com esses seres amados nos transforma em seres humanos melhores, poucos estariam abandonados. Mas para isso não basta tê-los por perto.
É preciso se entregar a esse amor tal como uma mãe ou um pai a um filho. É preciso abrir o coração ...o resto eles fazem . É simplesmente especial amar e ser amada por esses seres abençoados. Além dela, contribuo financeiramente com alguns protetores que fazem um trabalho lindo no resgate e cuidados com animais abandonados. É também uma forma de “adoção”. Adoção à causa, adoção de uma pequena parcela de responsabilidade por aqueles covardemente abandonados.

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