Quatorze integrantes de uma violenta milícia que incluía integrantes das Polícias Federal, Civil e Militar, da Aeronáutica e da Guarda Municipal foram presos, nesta quarta-feira (27), pela Operação Tríade, deflagrada pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (DRACO/IE) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (GAECO). No total, 16 pessoas foram denunciadas pelo GAECO à 1ª Vara Criminal de Jacarepaguá por formação de quadrilha armada para a prática de crimes hediondos e tiveram a prisão preventiva decretada pelo Juiz Titular Marco Couto, com base em inquérito conduzido pela DRACO com o apoio da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SSINTE).

Dois acusados ainda estão foragidos. O nome da operação se refere ao fato de o grupo, responsável por diversos crimes na área da Taquara, em Jacarepaguá, ser liderado por três policiais: o Delegado da PF aposentado Luiz Carlos da Silva, o Comissário da Polícia Civil Eduardo Lopes Moreira e o PM Thiago Rodrigues Pacheco, todos presos nesta quarta. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em 35 locais, arrecadando seis armas de fogo, munições e dois animais silvestres.
O bando, de acordo com a denúncia, age, pelo menos, desde 1998 nas localidades de Pedra Branca, Santa Maria, Pau da Fome, Estrada dos Teixeiras, Estrada do Rio Pequeno e Estrada do Rio Grande. Entre as práticas criminosas exercidas pela quadrilha, a denúncia cita homicídios qualificados; a cobrança de “taxas” por serviços clandestinos de segurança, conservação de ruas, sinal de internet e TV a cabo, água encanada e transporte alternativo; monopólio da venda de cestas básicas e botijões de gás; jogos de azar; crimes ambientais; agiotagem; tráfico de influência; esbulho de propriedades (grilagem); parcelamento irregular do solo urbano; dentre outros. A movimentação financeira do grupo era de, no mínimo R$ 200 mil por mês.

O funcionamento da quadrilha foi detalhado em entrevista coletiva, na Academia de Polícia (ACADEPOL), no Centro, pelo Delegado Alexandre Capote, Titular da DRACO/IE, pelos Promotores de Justiça Claudio Varela e Décio Luiz Alonso Gomes (respectivamente Coordenador e integrante do GAECO) e pelo Subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança Pública, Fábio Galvão da Silva Rego. “A quadrilha era muito audaciosa, violenta e mantinha importantes conexões com autoridades”, ressaltou Capote.
As investigações, realizadas durante seis meses, demonstram que os denunciados se valiam das funções exercidas junto a forças de segurança para influenciar investigações de interesse do bando e também para evitar a repressão policial, sobretudo por parte do 18º BPM (Jacarepaguá). De acordo com a denúncia, os integrantes da milícia agiam ostensivamente, exibindo armas de fogo e facões à luz do dia.
Primeiro escalão
Ainda segundo a denúncia, o Delegado Federal aposentado é proprietário do sítio onde a quadrilha se reunia e onde ele organizava as atividades como a cobrança das “taxas”. Luiz Carlos foi preso em flagrante por crime ambiental. No sítio foram encontrados uma arara e um papagaio, que eram mantidos em cativeiro sem autorização do IBAMA.
Moreira, de acordo com a denúncia, é o “justiceiro” e “matador” da quadrilha, sendo responsável pela “segurança” clandestina e por acessar informações de investigações. Pacheco, segundo os Promotores, controlava o transporte alternativo, o comércio de gás, jogos de azar, gatonet, gatovelox e outras atividades que geraram lucro para o bando. Adesivos com suas iniciais são usados em vans e moto-táxis, para que circulem sem repressão do Batalhão local.
A denúncia narra que, para consolidar o domínio das regiões, os investigados influenciam na escolha dos presidentes das associações de moradores e que a “taxa de proteção” cobrada é de R$ 35. Descreve ainda que os moradores que não se submetem às regras, testemunhas e rivais costumavam ser expulsos ou mortos pelo bando, que, em seguida, se apropria dos terrenos dessas vítimas. Além de homicídios, os acusados são investigados por ocultação e destruição de cadáveres, torturas, estupros, lesões corporais graves e invasões de domicílio.
Advogados
Os advogados Kleber Gomes Lima e Mauro Arthur Ribas também foram denunciados pelo crime de quadrilha armada. A participação deles, segundo a denúncia, se dava na falsificação de documentos para a legalização de terrenos invadidos, na intermediação das extorsões e na corrupção de policiais. O grupo chegou a registrar falsos crimes em delegacias para desqualificar testemunhas.
Pelo mesmo crime também foram denunciados outros 11 integrantes da milícia. A denúncia descreve a participação de cada um na estrutura da quadrilha: grilagem (José Carlos Lins Teixeira, Francisco Antônio Ximenes Feijão), “segurança” da quadrilha (Ubirajara Ferreira da Costa, guarda municipal; e Annibal Ramos, Militar da Aeronáutica), “segurança” das localidades (Felipe Lopes Moreira, filho do Policial Civil; Elias Bezerra da Silva; Sérgio Augusto Ferreira, foragido), cobrança de taxas (Edezio Réboli do Nascimento, Militar da Aeronáutica, ainda foragido; Edison Dias de Moura), aquisição de armas de fogo/influência política (Evaristo da Silva Alves), agiotagem/transporte alternativo (Luciomar Anselmo Sant’Ana Lima).
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