Batidas insistentes na porta. De início, a camareira sussurra. Dada a falta de resposta, e com a pressão da chefia, a moça aplica mais força na batida. Antes desta iniciativa, havia se esgotado o recurso de tocar o interfone e o celular da artista. A moça dentro da suíte permanecia muda.
A camareira exausta e receosa de perturbar os demais clientes que por ventura estivessem repousando após o almoço em seus quartos, preferiu ceder. Dera meia volta, caminhando pelo corredor rumo à escada que leva ao piso inferior.
_ Tentei o máximo. Nada de responder.
_ Está certo – a gerente aceitou a resposta da camareira deixando no ar uma expressão que podia ser tanto de repreensão como de tudo-bem-você-fez-seu-serviço.
Por que a preocupação se das vezes que estivera hospedada, a cantora agia do mesmo modo? Quando não estava fazendo shows, dando entrevista, refugiava-se na suíte, e o serviço de quarto ficava comprometido. A gerente tinha que segurar o estilo perfeccionista, frear o ímpeto de manter a regularidade da arrumação.
A compensação é que a cantora sempre escolhia este hotel quando vinha fazer show na cidade. E com ela, sua equipe. A imprensa fazendo cobertura gratuita do Hotel, valorizando o nome.
Na suíte, a cantora jazia em cima da cama. Apesar da arrumação imposta pelo servido de quarto, nota-se o desalinho promovido pela hóspede. Garrafas de bebida, pontas de cigarros sobre cinzeiros espalhados em lugares mais inusitados. A banheira com a água espumada da noite interior.
A artista ainda vestida com a roupa da última saída do hotel, quando o esperado seria o roupão de dormir. Tinha como hábito chegar em companhia de um ou mais amigos e drogarem-se a noite inteira. A situação nem era tão drástica ou triste na concepção da moça. Parecia mais a sequência de um dia comum: tomar um gole a mais e prosear sobre fatos triviais.
Era assim o fim das reuniõezinhas após shows. Uma espécie de continuidade do palco, diante da fumaça de cigarros e copos semi cheios balançando nas mãos.
No começo da carreira, contudo, a energia era devotada para criar letras, para achar o tom a fim de acompanhar os instrumentos musicais, para pegar a estrada, correr de uma apresentação para outra. Era o tempo em que a moça se realizava no palco.
Será que o tipo de música que ela fazia seria propícia para se venerar entorpecentes? Mera especulação. Embora alguns de seus ídolos possam ter tido a trajetória de vida rodeada pela boemia, pela existência desregrada, longe de dizer que esta tenha sido a causa.
A timidez pode ter influenciado a moça buscar fuga. Sim, timidez é traço complicado para o artista. Quando passou a subir no palco para grandes shows, diante da imensa multidão gritando elogios, palavrões, sentiu-se vulnerável. O assédio nas ruas. Eis o motivo de necessitar de fuga.
No início, o uso abusivo de drogas e álcool foi para tomar coragem. Com o passar do tempo seria para alimentar a dependência que crescia e se instalava em seu organismo.
Faltando horas de sono regular e alimentação adequada, fácil notar o declínio que a droga aplicava ao corpo da moça. Se antes era cheia de vida, no começo da carreira, escravizou-se na rotina entorpecente. As energias direcionadas aos shows e ensaios murchavam. Restava entregar-se mais e mais ao vício.
O corpo é mais lento que a imaginação. A adrenalina que vinha do uso da droga, cada vez diminuía. A viciada procura ingerir maior quantidade para atingir os primeiros prazeres. Se soubesse interpretar seu corpo, saberia que é hora de parar, de suplicar ajuda. Está intoxicada, e se assim segue, falecer é a única rota.
Às 16 horas, o gerente ao lado de um dos agentes da cantora abriu a porta do quarto. A moça estava morta por overdose.
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