Vou me desabafar, então nem me venha pedir consideração. Por falar nessa tal de consideração parece que os bateristas estão cada vez mais desprovidos do mínimo. A gente é visto como o último dos últimos, isto quando chega a ser notado. Lá no fundo, estamos a socar a bateria, dar o melhor de nós. E de que vale? Todos os fricotes e gritos para os vocalistas, piscadas sensuais para os guitarristas. E nós, nada.
Eu estava meio de saco cheio. Até pensei dar um tempo. Tudo bem, eu até entendo a divisão de trabalho, compreendo perfeitamente que numa banda os olhos da multidão naturalmente se voltam para quem está com o microfone na mão, soltando a voz, pulando, gritando, excitando a galera.
Sei que numa equipe todos temos nossa parte porque senão a equipe não vinga.
Mas que ego suporta tanta indiferença, humilhação? Já não basta ver por aí vocalista dando entrevista, sendo agarrado, adorado. Sequer valorizam nosso trabalho. Esquecem que sem baterista, o corpo não suinga, os quadris não se mexem freneticamente, as meninas não rebolam, e os rapazes não ficam pulando. Que cantor faz a galera sair do chão só com sua voz? Que balada dá um suadouro se você não se agita ao som da bateria?
Pior é ser barrado na porta. É isto mesmo. Teve uma vez, lá em Assis, que fomos dar um show. Calhou de eu me atrasar. Fui barrado porque o segurança não levou fé que eu era da banda. Ponte que partiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu eu sou baterista. Tive que espernear.
Se eu fosse o vocalista, me estenderiam o tapete vermelho, me reconheceriam logo.
No palco, quando uma tiete corta o bloqueio de segurança, é batata que vá direto para os braços do vocalista. De quebra, um beijinho no guitarrista. E o baterista? Um cão sarnento seria mais notado, pelo menos em função do medo de pegar sarna. A gente fica lá, isoladaço.
É pra deixar irado.
Após o show, no camarote, o único colo que fica vazio é o meu. O vocalista tem uma gata em cada perna. Nem os guitarristas têm do que se queixar.
Ossos do ofício. Nem sou tão frissurado em conquistar ou atrair tietes. Não é esta a questão. É a falta de valorização que me machuca, me pisa. E com a moda do órgão que simula bateria, aí é que estamos ferrados. O cara liga a máquina, e pronto.
Vinha nesse pé, meio irado. Mas a Renata me livrou duma deprê maior. Foi em Rio Claro que eu a conheci. Eu tocava a bateria. E ela piscou para mim. Tá, pensei logo que ela havia errado o alvo. Uma gata dando bola pro baterista apagadão? Não pode ser. Mas era. Não é tiete, tipo pega todos, nada. Era super tímida. Levei uma semana para saborear seus lábios e dar um abraço. Ela disse que na banda sempre adorara a função de baterista, pode? Que sensível, que amor! Tem 19 anos e é professora primária. Super carinhosa.
Toda vez que o vírus do despeito me machuca, eu bato com vontade na minha batera, pois agora tem alguém que me sorri na multidão. Ela costuma ir aos meus shows...
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