08/06/2011 - 0:00h

Muito especiais!

Por: Nena Medeiros
Nova Friburgo

Laila e Joly foram resgatadas das ruas. Vítimas de abandono como tantas outras de que temos notícias, elas não sucumbiram às estatísticas: 85% dos animais deixados à própria sorte por seus “donos” morrem nos primeiros dias, a maioria, vítima de atropelamento. Não, elas não sucumbiram ao trânsito caótico das cidades. Mas, quase.

Laila, paralítica da cintura para baixo, arrastava pelas ruas da Ceilândia um barrigão de dez filhotes, já em tempo de parto. Joly, ainda muito jovem, estava jogada em frente ao Centro de Reabilitação Deus Proverá, à espera da providência divina, por mais de dois dias, “toda desconjuntada”. Foi “salva” por uma vizinha, apenas para ser novamente abandonada, desta vez, em frente ao Hospital Veterinário da UnB, onde ficou arrastando-se às margens da movimentada L4, em vias de sofrer um novo e talvez definitivo atropelamento.

Laila e Joly fugiram às estatísticas. Graças ao apoio de muitos envolvidos com a causa animal e muitos “simpatizantes”, receberam abrigo, atendimento veterinário, alimentação, água e carinho, muito carinho. No dia 21/03 iniciaram tratamento de fisioterapia e acupuntura e têm chances de desenvolver o que os médicos chamam de marcha reflexa, ou seja, poderão andar. Será um caminhar meio desengonçado, mas ainda assim, lhes dará mais independência e evitará feridas provocadas pelo arrastar-se no piso.

Até lá, elas usam cadeirinhas de roda. A da Laila chegou pelos Correios, adquirida pela Internet. A da Joly foi fabricada em casa, a partir de um carrinho de feira, a um custo bem menor. As cadeirinhas não podem ser usadas todo o tempo, não lhes permitem deitar para o repouso e podem provocar assaduras, mas são recursos importantes para que elas possam exercitar-se, divertir-se e interagir com os outros cães da casa, embora a paraplegia não as impeça disso.

Laila e Joly, mesmo sem as cadeirinhas, brincam, disputam espaço e carinho, cheiram tudo o que vêem, latem, defendem território e matilha. Indiferentes à sua paraplegia, são cães, no verdadeiro sentido da palavra: amorosas, carentes, alegres, espertas, fortes, corajosas, curiosas... Vivem o presente. O passado talvez volte em fragmentos, quando precisamos nos afastar delas. Nessas horas, choram de angústia e tristeza pelo medo de um novo abandono, este sim, seqüela dolorosa, mais que a medula rompida... Futuro, talvez a espera pelo nosso retorno. No intervalo, uma eterna lição de vida: é o momento que importa, a amizade, o amor pelos seus... Viver!

Dá trabalho? Sim! Elas são incontinentes, a higiene é um problema. Também dá gasto, embora muito tenha sido conseguido com doações e subsídios nas clínicas onde foram atendidas. Mas, sabê-las protegidas, amadas, cuidadas como todo ser vivo merece ser, é uma sensação maravilhosa. Dizem que um animal assim tem um sentimento forte de gratidão. Não sei... Só sei que eu agradeço a Deus por cada minuto delas ao meu lado, cada pequeno progresso delas no seu dia a dia de eterna superação.

Por que eu conto tudo isso? Não. Não é para receber loas e ovações pelo meu ato caridoso, pelo meu grande coração. Na verdade, a decisão de acolher essas mocinhas foi muito mais racional do que emocional: elas precisavam, eu podia. Seria muito mais fácil sacrificá-las logo... Para quê manter vivo um animal com esse nível de dependência e limitações? Porque é isso o que nos difere dos outros animais: somos capazes de dar valor à vida. Protegemos os idosos, os doentes, os mais fracos. Lutamos por eles, queremos vê-los bem, não queremos que sofram. Isso é evolução e eu gosto de partilhar essa minha experiência para incentivar outras pessoas a fazer o mesmo, porque, como a Laila e a Joly, existem muitos outros animais com necessidades especiais precisando de um lar por aí. No Augusto Abrigo, por exemplo, sei que há três. Imagine quanto um lar amoroso faria bem a algum deles... Imaginou? Pois é... Agora, basta querer e poder.

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(Foto: Divulgação)





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