À mesa, as caras se movimentam. São onze pessoas. Tia, primos, marido, mulher, filhos, sogra, sogro. A mesa farta, tudo a ver para comemorar um feriado nacional, a Páscoa. As bocas gulosas mastigam o bom alimento que chega por fartas garfadas. Uma reunião atípica para a família: todos reunidos.
O anfitrião resistiu horas a fio sem bebericar. Servia uma cervejinha para os convidados que iam chegando. Ele mesmo, esquivando-se. Aliás, o jejum alcoólico perdurara três meses. Se à mesa da páscoa tomou um vinhozinho não foi por quebra de promessa. Natal, Véspera de Ano Novo e Páscoa eram religiosamente aceitos para bebericar um trago.
Infelizmente, este biólogo não guarda boas relações com o álcool. Pior, na maioria das vezes que se deixou envolver pelos braços macios da loira gelada, acabou dando vexame, destaque para os tempos de juventude. Na vida adulta, é o Baco que lhe funde os miolos e o faz vomitar palavras, risos, frases, desabafos que o farão se arrepender durante uma fileira de dias. Claro, se ninguém o repreender no dia seguinte pelo vexame, pouca importância terá o evento em sua memória.
Nos tempos que corre, ele está mais maduro, ou menos propenso a dar vexames, tem como meta esquivar-se do álcool. Tem tid o êxito digno de um atleta numa competição olímpica. “Que alegria não ter que se arrepender amanhã do que se disse hoje”, dizia para si sempre que declinava do convite para aceitar uma cerveja.
De volta à mesa, tome mais batata, mais arroz, mais bacalhau, mais cebola, oh, deliciosas cebolas. O biólogo, com a garrafa ao lado, bebia o belo vinho a cada duas ou três garfada de comida.
_ “Quem está tomado vinho”, disse a mulher.
_ “Eu”, respondeu o marido, já com o mau-humor azulando a face por esta pergunta tão fora de propósito para ele.
Os comentários da esposa que se seguiram, algo inocente e perfeitamente compr eensível à luz de um relacionamento solto, sadio, para o marido soou como uma tremenda repreensão, desta que nos faz querer lançar o prato aos ares.
Pronto, a refeição para ele tinha acabado. Não adiantava discutir, pois o casal estava desgastado, e qualquer incidente tinha a mera qualidade de trazer à tona o incômodo que habitava no interior de cada cônjuge.
Recorda-se ele de ter dito uma frase desagradável. A esposa revidou. O desassossego se instalou. “Droga, podia ficar com a boca fechada”, o biólogo disse para si. Mais uma vez rosnou contra o maldito álcool. “Sem o maldito álcool eu consigo engolir desaforos, ser indiferente...”
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