21/12/2010 - 9:58h

Mais do que simples palhaçada

Ronaldo Duran é escritor e colabora nesta revista toda semana
ronaldo@ronaldoduran.com
São Paulo

Pernas para o ar. Faz um bom tempo que não ficava largadão. Lembrou-se do primeiro e segundo anos de faculdade. Culpa de quem? Da semiótica? Dos conceitos de pós-modernidade? Da antropologia, sociologia, filosofia? Ou dos colegas que o arrastavam para os barzinhos de Pinheir os? Ou dele mesmo, que se deixou fisgar pela fascinação da vida desregrada.

Naquele tempo, a única regra era manter-se na faculdade, lutar ferozmente contra a ressaca, o desânimo. Estar em sala de aula. Ainda que fosse com os óculos escuros escondendo a vermelhidão dos olhos, ainda que os bocejos incômodos perturbassem a concentração da turma e a dele próprio.

Pensou que regredia. Logo agora que faltava pouco para colar grau. Não! Tinha que resistir, como fizera ao término do segundo ano do curso de jornalismo. Deixou de ir para barzinhos, de jogar conversa fora com o pessoal da Atlética. Tudo por que uma menina apareceu na sua vida. Com ela, um convite de estágio na rede de TV local. Ele curtiu. O estágio era remunerado.

Nunca havia trabalhado. Não era rico, mas era visto como tal por ter o pai bancando as despesas.

O celular toca. Preguiçosamente, atende: “Aí, cara, já estamos chegando...” Queria desmarcar. Falar que estava cansado. O próprio cansaço, contudo, o desanimou de tentar convencer. Uma hora mais tarde estava no teatro da faculdade. O coral de meninos da Fundação Casa - SP iria se apresentar. Ele, ali, contra v ontade. Se não valesse nota para fechar a disciplina nem teria pisado no auditório.

O ano era 2005.

Algo se apoderou dele. Heitor Villa Lobos? A música Airton Senna? A bandeira do Brasil? Não somente. Aqueles meninos, ele os imaginou em suas vidas infracionais e, agora, cantando... Para subir ao palco se dedicaram. Ele mesmo havia desistido do coral da faculdade. Mostravam que podiam deixar de ser infracionais se a sociedade lhes der a devida atenção, não somente oportunidades presumidas, mas a devida atenção.

Rompeu-lhe lágrimas ao ver mães não poderem abraçar os filhos por causa das algemas.

A imagem o acompanhou por dias, semanas. Tempos depois estava na Fundação Casa, apresentando-se para os meninos. Vestia-se como palhaço da Idade Média, fantasia que usara numa apresentação teatral na adolescência. Havia decorado um texto de auto-estima. Aplaudido, misturou-se com os jovens, e desmistificara tantos equívocos...

Bastou colar grau em jornalismo, decidira ganhar o pão no palco. Shows para a vida. Para sacudir sua desesperança e das pessoas que porventura o assistissem.





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