Que absurdo. Que coisa do outro mundo. Logo eu pensar assim. É que de repente me abateu um nojo, uma situação que provoca incômodo inenarrável. O que está acontecendo comigo para ter nojo do cigarro, eu que sou uma fumante compulsiva? O fato é que está cada vez mais complicado aceitar a sujeira alheia. O copo descartável sujo de café, as cinzas espalhadas no banheiro.
Será que estou começando a deixar de gostar do cigarro? Pior que não. Na minha privacidade, adoro tragar, soltar fumaça. Espero impaciente para que uma reunião acabe para eu correr para um cafezinho e pitar um. Na medida em que a reunião se estende, a tensão aumenta: os lábios se oprimem, o pulmão se aporrinha com o puro oxigênio, as narinas esbravejam por nicotina, os olhos reclamam da irritação de não ver diante de si o formato do cigarro e os dedos tremem por sentirem-se vazios.
De manhã, porque é de manhã, o cigarro cai otimamente bem. Na hora do almoço, logo que o estômago forra-se com comida, a nicotina tempera o bolo alimentar. À tardinha, o cigarro com café me desperta do sono. E antes de dormir, o cigarro relaxa o corpo.
E este nojo! Que inconveniente. Vem, contudo, unicamente na presença de outrem. Eu, no gozo de meu trago, nada sinto de aversivo. Apenas prazer. E a tosse seca, o peito encatarrado, os dentes amarelados? São os pedágios que pago para trafegar na estrada do meu prazer.
O outro me perturba. Nunca a máxima sartriana de que o inferno são os outros fica tão patente quando me deparo com pessoas de sorriso amarelado, papeando comigo, o bafo fétido exalando náusea. Ah, que irritação quando me sento no sanitário e percebo cinzas de cigarros espalhadas pelo chão: minha roupa sujando, o papel higiênico contaminado. Que deprimente. E como cúmulo do absurdo vem o copo descartável sujo de café deixado nas mesas da repartição. Raros os fumantes asseados, não emporcalhando com sua fumaça e cinzas e bafos o ambiente. Se eu não fumasse, com certeza arrumaria briga com quem fuma. É outra coisa que não entendo: não sei como os não-fumantes suportam passivamente o desrespeito que os fumantes causam.
Estou enojada? Talvez seja uma fase. Fumo há décadas e é a primeira vez que sinto incômodo. Nem as campanhas antitabagistas com crianças mortas ou o garoto propaganda definhando no hospital fruto de complicações respiratórias me causaram o menor remorso. Ora, morrer todos nós vamos. Mas a sujeira, a fumaça, o nojo vendo outrem fumar, me deixa irada. Tem uns tão sujos e desprovidos de bom-senso.
Por que estou falando assim? Eu sou fumante. Deveria estar defendo meu time. Na verdade, sempre o fiz. E agora, essa insanidade. Será tensão pré-menopausa? Quem sabe.
Tweet
Saiba mais sobre Fumante:
27/12/2011
Tabagismo é causa de 62% de casos de aneurismaSaiba mais sobre crônica:
15/05/2012
USP vai desenvolver banco de células tronco para pesquisar doenças crônicas e novas drogasSaiba mais sobre cigarro:
14/03/2012
Cigarros aromatizados e com sabor estão proibidos no Brasil, decide AnvisaSaiba mais sobre fumo :
14/03/2012
Cigarros aromatizados e com sabor estão proibidos no Brasil, decide AnvisaLeia mais sobre Ronaldo Duran:
09/09/2011
Rap atrás do muro26/07/2011
No palco19/07/2011
Ex-Aluno13/07/2011
Salão Nobre31/05/2011
Bato com vontade*19/05/2011
Recém-nascido18/04/2011
Manhã em Realengo| Conheça outros canais do Portal Êxito Rio |