“Droga, os homens tão perturbando, tá ligado?”, era a voz do comparsa ao telefone.
-“Não vai ter jeito. É passar o cerol no pescoço deles”, respondeu o chefe. Após esse diálogo, uma enxurrada de palavrões e xingamentos. Típica conversa entre traficantes. De um lado, o gerente de uma boca na Vila Cruzeiro. Doutro, o chefão, dentro do presídio de segurança máxima, longe do Rio de Janeiro.
Ultimamente o chefe só recebia ligações ruins. Nessas duas ou três semanas, foi a gota d`água. A receita diminuindo. Tudo por causa da polícia pacificadora. A simples presença da polícia (diga-se, dos bons policiais, aqueles que não cedem à propina) emperrava a indústria do tráfico, causando prejuízos nunca antes vistos.
Dentro do presídio de segurança máxima, o chefão irritado ordena que se comece a expulsar a polícia pacificadora.
-“Vamos mostrar quem é que manda”, vociferou. “Queimem carros, ônibus, ataquem os policiais... Eles vão acabar recuando”. O mesmo recado fora dado horas mais tarde através do advogado do criminoso.
Tiroteio e balas perdidas começaram depois desta ligação. Embora essa realidade fizesse parte da rotina de muitos cariocas, a intensidade das agressões chamou atenção. O que causaria tristeza na população seria ver a polícia pacificadora deixando o morro.
Acostumados a assistir filmes que mostram as falhas das instituições, os descrentes acreditavam que os bandidos conseguiriam se impor. “Tudo por conta dos interesses pessoais que costumam deixar de lado o benefício público”, defendia um ativista social.
-“Quê? Intimidar o tráfico? Em breve, vão chamar os líderes criminosos para negociar o cessar fogo e fazer concessões”, eis o nível do ceticismo de muitos cariocas.
-“O tráfico do morro tem jeito”, diria um aposentado, após ter presenciado a barbárie de queima de veículo na Linha Vermelha quando de volta do trabalho para casa, o que falta é vontade política. Dos governos, é necessário que pensem no bem comum. Esqueçam bandeiras, partidos. Não se trata mais de fazer bonito hoje para usar como marketing nas eleições de amanhã. Trata-se de mostrar à população que existe mais pessoas de bem do que criminosos na política e na polícia”.
O traficante que ordenou o ataque ao Rio estava tão seguro do êxito na intimidação quanto os mafiosos italianos de outrora e das gangues nova-iorquinas na década de 80.
Mas chega o dia em que o povo desperta da letargia. Começou uma onda de bastas, queremos Paz. De repente, os bandidos foram fragados por celulares, a população mostrou à polícia que estava pronta a cooperar nos disque denúncia. Os corruptos ainda tentaram bloquear a iniciativa popular. Não tiveram sucesso. A cabeça da impunidade, da violência contra o carioca, tinha caído como a do Rei francês em 1789.
O Rio de Janeiro finalmente pediu ajuda ao Brasil, e o Brasil, através de pessoas de boa vontade, correu em socorro de seu filho federado. Primeiramente, a Marinha. Depois o Exército. Até a OAB veio a público afirmar que não dará guarida a advogados que trabalham para criminosos.
“Droga, como eu ia adivinhar que a população teria coragem de nos enfrentar... que os governos federal, estadual e municipal deixariam o egoísmo de lado e agiriam em conjunto a favor da segurançadas pessoas”, exasperou-se o traficante dentro do presídio.
O traficante torcia, contudo, para que toda aquela mobilização social não passasse de fogo de palha. “Só assim poderei voltar a lucrar”, disse para si dentro da cela.
Por trás da segurança aparente, o detento temia que aquela mobilização social se generalizasse. Logo não somente a zona norte do Rio de Janeiro, mas toda a cidade fazendo cerco aos criminosos. Bandidos de colarinho branco também seriam presos. Armas e drogas deixando de subir no morro. Em vez disso, escolas de qualidade, cursos técnicos, empregos, saúde, tudo para evitar que o tráfico se mantenha como alternativa atraente.
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