23/11/2010 - 11:01h

A cultura do litígio

Por: Attila Mattos
Nova Friburgo

Eram 10h30 da manhã de uma segunda-feira de outubro de 2008, quando dona Wanda entrou no escritório da advogada Dra. Daniele. Dona Wanda estava desesperada, pois no fim de semana havia percebido que seu vizinho, seu Jacinto, tinha avançado 20 cm para dentro de seu terreno com uma caixa d`água nova que o mesmo instalou para melhorar o abastecimento de sua residência.

Naquele fim de semana, dona Wanda recebeu visitas para um churrasco e todos foram unânimes na opinião de que ela deveria procurar um advogado para solucionar aquela situação ultrajante, afinal de contas aquilo era uma invasão.

A senhora relatou o problema à advogada e esta de pronto sentenciou que deveriam processar o tal vizinho, pois aquilo era um absurdo e não havia outra medida a tomar se não a de levá-lo à justiça sob a acusação de invasão de propriedade e de outras acusações cabíveis no caso.

Elas acertaram o valor dos honorários, acrescido do valor das custas judiciais; dona Wanda pagou uma parcela inicial e foi para casa feliz e entusiasmada com a afirmação da advogada de que ganharia a ação e receberia uma boa indenização em função do crime grosseiro cometido por seu Jacinto. Dona Wanda nunca mais falou com o vizinho com quem mantinha boas relações até aquela data, passou a não mais o cumprimentar e começou até a alimentar ódio pelo tal senhor que era seu vizinho por mais de 20 anos.

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(Foto: divulgação)

Em outubro de 2010, isto é, dois anos após o fato narrado acima, eu entrei, em visita de trabalho, na casa de um desembargador com quem privo de certa amizade além do trabalho profissional que presto ao mesmo.Após meu serviço sentamos para conversar e ele fez questão de me mostrar o imenso número de processos que recebe.

São em torno de 100 a 150 por mês num total de mais de 1000 processos por ano. Observei o desembargador mergulhado em pilhas de papeis e ouvi seu relato de que a maior parte das questões é de ínfima importância, de motivo torpe e que certamente poderiam ser resolvidos num acordo tranquilo se não fosse o senso comum de litígio estabelecido no Brasil e a ação sórdida de muitos advogados canalhas que fomentam tais litígios entre as pessoas, com fins de ganhar dinheiro aproveitando-se da ignorância de quem entra em seus escritórios.

Em meio a todos aqueles processos da sala do desembargador, talvez estivesse o de dona Wanda que dois anos depois de ter entrado com o processo, ainda tinha a caixa d´água do vizinho 20cm dentro de seu terreno,  havia se tornado inimiga do vizinho e a única beneficiada com a ação foi a advogada que comeu o dinheiro da ingênua senhora.

Casos como esse ocorrem aos milhares porque se criou no Brasil o que se chama de CULTURA DO LITÍGIO, isto é, para qualquer questão entre as pessoas, a indicação é de que se mova um processo sem ao menos tentar um acordo prévio.

Problemas banais vão aos tribunais assoberbando a justiça e queimando levianamente dinheiro de nossos impostos. Deveriam ser punidos os advogados inescrupulosos que incentivam as lutas judiciais. Profissionais com esse perfil são os crápulas, boçais e incompetentes que precisam usar desses artifícios para sobreviverem profissionalmente e ganharem o pão de cada dia. Os advogados, isto sim, é que deveriam educar as pessoas para os acordos.

É importantíssimo que se crie a CULTURA DO ACORDO em nosso país para que possamos resolver nossas pendências com dignidade. É necessário que se estimule o exercício da capacidade de ceder do ser humano porque nós não somos primitivos a ponto de termos que guerrear para garantir nossas necessidades básicas ou para resolver nossas pequenas diferenças. Sempre há a possibilidade do acordo. Urge que se fomente uma campanha nacional para isso pela ação da mídia e das instituições.

DIGA NÃO AO LITÍGIO!!!

                                  





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