Na sala de televisão, os irmãos verbalizavam planos para aproveitar o passeio. Hoje, 15 de novembro, último dia do feriado prolongado. No minúsculo quarto, a mãe se exprimia em meio a cama, cômoda e malas para passar protetor solar na filha caçula. “Fica parada, quieta. Assim a gente não vai passear”, a mãe ia procurando diminuir a impaciência da criança de seis anos.
Meia hora mais, e todos se enfiando no carro. Apesar de espaçoso, estilo tiozão, comportar toda a tropa daria problema. Um pisando no pé do outro. As magrinhas e novas indo no colo das mais idosas e recheadas pelos anos. O condutor mal podendo mudar a marcha. Eram 9 horas.
Chegaram à praia pelas 11 horas e lá ficariam até umas 4 horas da tarde. Antes de subir a Serra de volta, ainda no apartamento alugado, voltariam para tomar banho, arrumar as bugigangas. Como boa parte dos turistas de feriadão no litoral, tinha-se a doce ilusão que se pegassem a estrada por volta das 20 horas, encontrariam menos trânsito.
Alojados sob a tenda alugada, o grupo da sombra estava satisfeita. Os que querem pegar bronzeado estiravam-se sobre a toalha em cima da areia quente entregando seus corpos aos raios solares.
Os adolescentes, 14 e 17 anos, difícil ficar muito tempo com os idosos. Ora flanando à beira mar ora gastando o fôlego na disputa de quem nadava ou ficava mais na água salgada.
Se em toda idade o ser humano requerer vigilância, esta deve ser redobrada na idade infantil. Seja por uma razão ou outra, há pais que descuidam neste item. Quando percebem, a criança está a metros de distância. Muitos casos acabam bem. Um salva-vidas ou qualquer pessoa digna, percebendo a vacilada materna ou paterna, vem ao socorro. E a criança aparece carregada e entregue aos pais desesperados.
Quis o destino que a criança aqui, menina alegre, vivaz, engrossasse a lista das não encontradas.
A tragédia é inenarrável. Correia. A família se dividindo em busca da criança que vagava sabe Deus por onde. Sumira pouco antes de uma hora da tarde, mas as pernas da família só fraquejaram nas buscas por volta das duas da madrugada.
Ainda que em torno das cinco da tarde a polícia tenha sido acionada, os pais não pararam. Quantos banhistas interrogados? Quantos vendedores ambulantes questionados? Quantas idas e vindas em tantas direções? Um número incalculável.
As ações pensadas e dividas. Os mais jovens e resistentes continuavam dando busca pela praia, quiosques, embarcações. Os mais velhos, ficariam de plantão na delegacia, no corpo de bombeiro. Os craques na informática mergulhariam no Orkut, facebook, MSN, no envio de emails em massa, tudo para deixar o cyberspace avisado. O IML sendo evitado por todos.
“Por que, Deus, o Senhor não proveu às mães com uma bola de cristal para que elas achassem sempre o filho perdido?”. Este pedido vinha de uma senhora que se juntara à família e que vendo o sofrimento daquela mãe, indignava-se com a fragilidade do ser materno em não poder ter de volta a criança perdida.
O feriadão para esta família serialembrado pela tragédia. O clima de retorno para cidade de origem seria pior que de um enterro. Como é cruel para a mãe, para o pai sequer ter a chance de proteger a criança por desconhecer seu paradeiro.
“Pais fiquem alerta. Evitem provar desta amarga tragédia. Eu vacilei. Quero que vocês não passem pela dor e arrependimento que desgraçou minha vida”, desabafo vindo da própria mãe, dado a uma rádio, quase dois meses depois do ocorrido. A filha continua desaparecida.
“Morreu? Estaria cativa e maltratada? Teria sido achada por um coração generoso? Mas se um coração generoso a tivesse achado por que este ainda não comunicou à polícia? Eram dúvidas que tiravam o sono, o apetite e a vontade de viver daqueles pais infelizes.
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