Andar de avião é uma surpresa. Até de não conseguir decolar. Motivos para não decolar são inúmeros. A pessoa amada, antes brigada, que na hora que você entrega o passaporte, grita correndo em sua direção: “não vá embora, pois eu te amo”. Os acidentes, tipo o avião perder a rota e explodir num galpão, também são prováveis.
Irritante é o apagão aéreo. O número de aviões é menor que a demanda ou outra ingerência qualquer, promovida pela ganância de companhias aéreas ou negligência governamental.
O caso deste universitário, que no seu primeiro voo corre o risco de não embarcar, é menos drástico. Embora a consciência ébria procure culpar a companhia aérea, o único culpado é ele próprio.
O rapaz, há uma semana, ainda no Brasil, pagara as despesas tranquilamente. Em sua defesa, a taxa de embarque de ida naquele momento fora mencionada por alto. O que ele não se atinara é da taxa de embarque da volta. Para ele, toda e qualquer taxa estava embutida na passagem aérea parcelada em dez vezes no cheque especial há um mês.
Para alguns universitários, a falta de dinheiro é como as espinhas ou cravos nos jovens. Às vezes, o baixo poder aquisitivo é culpado. Noutras, deve-se mais à falta de antecipar despesas do que propriamente culpa do exíguo recurso monetário.
O universitário pousara no aeroporto de Londres. Já à tardinha, tomara o primeiro gole antes de ir dormir no albergue da juventude. Dois dias depois, pegara o trem para Paris. Lá, os bares o atraíram como a Catedral Nacional de Nossa Senhora Aparecida no Vale do Paraíba atrai os devotos.
Para seu azar ébrio, os cafés parisienses o aprisionaram. Rodou a cidade, adentrou na Sorbonne, flanou no Louvre. Mas sua mesquita eram os cafés, com mesas espalhadas na calçada, protegidas do sol ou da chuva por toldos.
Voltar para Londres, um sufoco. O dinheiro dando apenas para pagar a travessia. Dormiu no aeroporto. Primeiro por falta de grana para o albergue; segundo, o vôo sairia ao meio-dia. Passou fome. Sonhando, contudo, com o lanche que seria servido no avião, conseguia manter a paciência.
E agora, não tinha grana. O que fazer? À companhia aérea pouco importava que perdesse o vôo. E se perdesse o voo, aí sim, lascaria tudo. Sobrou o último recurso: mentir que havia sido roubado. No posto consular do Brasil, um senhor maduro o suficiente para adivinhar a
mentira ou pôr em dúvida a verdade, lhe pagou a taxa de embarque do próprio bolso, sem deixar de dizer: “seja prudente da próxima vez...”. Sem graça, o jovem baixou a cabeça.
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