Quando se trata de aparência, poucas atitudes tomadas num momento escapam de arrependimento futuro. A cirurgia plástica no nariz, antes desejada, que arrancava a maior convicção, para se livrar do formato de taboca, herança não quista dos antepassados, depois de feita, buzina a teimosa idéia de que poderia ficar melhor. Sem falar quando se prefere ficar como estava.
Opinião contrária demonstra o sujeito, nascido no Recife, e que mora faz um bom tempo na cidade de São Paulo. Adentra a repartição, na condição de motorista, trazendo a convicta imponência ao exibir os dentes cada vez mais prateados. Eu não saberia dizer se o nome de
´Prateado´, pelo qual é conhecido na empresa, vem dos dentes prateados ou não. O fato é que o conheci como Prateado.
Parou perto de mim. Cumprimentou-me. É figura simpática, extremamente acolhedora. Tem assunto para todas as ocasiões. Difícil vê-lo resmungar, reclamando. Ao seu lado, nos sentimos zen. Torço para que nós paulistanos um dia evoluamos para esta condição: de sorrir pra vida, e parar de se lamentar do metrô, do camelô, do presidente, dos planos frustrados...
Confesso que ao assumir que havia trocado boa parte da arcada dentária, inclusive extraindo dentes bons, pelos atuais prateados, me deixou em dúvida quanto a sua sanidade mental. Muita excentricidade. É a melhor coisa que inventaram. Sem dor de dentes. O material é mais resistente que o natural, justifica-se ele, não para mim, mas para seu conhecido de longa data.
Tudo nele transparecia uma convicção invejável. Eu jamais faria essa loucura. Não só por que morro de medo de ir ao dentista. Pensar em extrair boa parte dos dentes, ainda vigorosos, sadios, para meter no lugar os tão estranhos ao sorriso de comerciais de pasta de dente. E se houvesse rejeição do organismo? E se as pessoas zombassem dele pela mesma estranheza que me causa quando o vejo rir ou falar? Não, eu tô fora.
Deu tapinha no ombro de seu colega, beijou uma amiga e saiu. O andar, o cabelo grande, com rabo de cavalo, o estilo despojado, tudo indica que a confiança em si é traço singular. Eu digitava ao computador, mas a imaginação o seguia.
É tão bom tomar um caminho e não se arrepender... Pouco importa se os dentes são prateados ou os cabelos verdes. Talvez essa atitude seja por culpa da necessidade silenciada de se diferenciar em meio a esta massa amorfa que rola para cima e para baixo as escadarias do metrô ou que entope as transbordantes ruas da capital ao volante do veículo ou moto, ou aboletada no assento de ônibus.
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