Ontem fiquei sabendo que um colega da empresa morreu. Uma curva, e pronto, deu de cara com outro veículo. Batida frontal. Chegou vivo ao hospital. Mas não resistiu aos ferimentos. Colega de longa data. Ele tinha lá suas esquisitices. A que mais me chamava atenção era ter a mania de andar com luvas, ainda que estivesse o maior calor. Segundo ele, era para evitar os germes. A forma como falava a palavra germes fazia com que os camaradas dessem risadas, inclusive eu. Claro, era boa gente. Um verdadeiro companheiro.
Ora, ver um camarada que estava conosco reclamando do salário, curtindo o fim de semana à beira da churrasqueira, preparando o filé miau, ou provocando e sendo provocado pelos amigos no serviço e que de repente a gente fica sabendo que a morte veio lhe buscar. Não é fácil, não dá para ficar indiferente.
Choque assim pode explicar essa encucação, esse medo da morte? Um pouco. Que
outra explicação para um cara que sempre gosto u de dirigir agora passar a ter receio da estrada? Antes, uma estrada representava liberdade. E se as viagens para fora da capital paulista eram longas e cansativas, tinha-se a impressão de estar no paraíso ao trafegar pela Washington Luis, Marechal Rondon, Castelo Branco. O vento lambendo o rosto. A paisagem com cana de açúcar, com laranjas, com madeiras, eucaliptos, gados, o verde envolvente. Tudo contribuía para que eu aceitasse uma intimação para viajar durante
cinco ou seis horas ininterruptas como uma criança que vai ao parque de diversão.
Hospedar-se na pousada ou hotel, ou pernoitar em postos na estrada enriquecia a viagem, mas o que me importava mesmo era reunir forças para a jornada na rodovia.
A encucação apareceu. Não que eu nunca tivesse tido medo antes. Uma ultrapassagem brusca, um carro que de surpresa surge do ponto cego, um caminhão lá na frente, curva fechada, neblina que cega. Sim, houve vezes que até mijei nas calças. Só que numa boa. Mas agora é diferente. Um medo sem explicação. Parece que vejo minha morte a cada curva, a cada caminhão-cegonha à frente.
Mudar de profissão? Até tentei. Nas duas que me lancei não deu certo. Quem teve a estrada como o corredor de local de trabalho, não consegue se confinar entre quatro paredes. Pelo menos não eu. Desabafei com um ou outro colega, mas se eles são camaradas, há horas que suas chacotas com a aflição alheia me irritam. Procurar a psicóloga da empresa? Tenho dúvida. Se ela me afasta? Logo agora que faltam oito anos para me aposentar. Fico quieto.
Uns colegas me disseram que uma cachaça é remédio certeiro quando essa perturbação surgir. Beber e dirigir? Longe de mim. Não quero causar um acidente que me mate ou mate outros. Que idéia meus filhos teriam de mim, logo eu que cobro: se beber não dirija.
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