Quando o carro parou na entrada da pousada, elas ficaram alegres. A vinda da cidade do interior de São Paulo tomou um tempo considerável. “Meu corpo ta moído”, o suspiro da moça bem resumiu a exaustão física que a longa viagem provocou. Na recepção da modesta – mas acolhedora – pousada, se as caras das meninas estavam amuadas nada tinha a ver com os arredores.
- “Basta eu dar uma cochilada de meia hora pra eu estar no pique”, dizia a japonesinha que arrastando as malas rumava escadas acima.
-“Um banho e um copo de chocolate gelado já me deixa melhor”, respondeu a loira.
No quarto, ambas quedaram boquiabertas quando viram a bela paisagem. A pousada exibe vista exuberante. Localizada na encosta, pode-se ver lá embaixo, pela sacada ou através da enorme janela envidraçada, um panorama de tirar o fôlego, principalmente para quem é acostumado a ir para o litoral somente nas férias ou datas especiais. À esquerda, o azul do mar aberto, as embarcações. À direita, a praia, os quiosques, pouquíssimas casas, morros.
O dia era 28 de dezembro. O plano era retornar para casa dali a duas semanas. Sim, desta vez iriam romper o ano na praia. Se o número de fogos e agitação fica muito aquém de Copacabana e da Avenida Paulista, ainda assim Angra dos Reis é uma maravilha se comparada à calmaria da cidade interiorana onde moram.
O grupo no qual estavam as amigas logo se agregou aos demais, e naquela mesma noite circularam pelos primeiros points da cidade. Regadas a suco de laranja e limonada suíça, prosearam à vontade. Não chegaram a ver artistas. “Mas eles vivem por aqui e a gente vai acabar topando com um”, dizia a amiga, justificando a máquina fotográfica digital que leva a tiracolo.
Para o dia 30 tinham tantos planos. Ir ao centro histórico da cidade, se tivesse algum. E comprar quinquilharias. Sobrou pique para visitar pontos turísticos? Que nada. A agitação da antevéspera de fim de ano provocou tal inércia nelas que mal puderam sair da prainha. Debaixo de um quiosque ou guarda-sol, aproveitaram o sol. A previsão do tempo, ouvida não se sabe em que telejornal, dizia que viriam dias de chuva. Na linguagem dos turistas: dias sem praias, de ficar isolado nos quartos de hotel; olhando desgostosamente a água cair lá fora pela janela ou sentar-se encharcado nalgum banquinho à beira-mar, com a chuva ensopando o top ou camiseta e o shortinho ou bermuda.
Lá pelas 16 horas, do dia 31, resolveram subir para o quarto. Assistir a corrida São Silvestre, telefonar para os pais, amigos e paqueras. Dar um tempo da agitação, da andança. Aproveitar para passar a roupa de réveillon e ajeitar brinco s, batons. Com direito a chapinha e tudo. Até deu para acompanhar o último capítulo do ano de 2009 de Malhação.
Pouco antes da meia noite, estavam nos arredores da pousada com a turma dos universitários. Em raros momentos elas proseavam com casados. A divisão, os interesses e agendas são tão diferentes que acabam forçando casados e solteiros a manterem certa distância respeitosa, ainda que nem percebam.
Desceram à orla, e aproveitaram ao máximo. A queima de fogos promovida pela prefeitura não deixou a desejar. A máquina fotográfica não parava de clicar. Só descansou na hora de a moça pegar a taça de champanha e brindar Um Feliz 2010.
Voltaram tarde da noite para o quarto, acompanhadas de uma chuva fina no começo. Mas que se intensificaria ao longo da noite.
Num certo momento, o estrondo. O desespero. A terra descendo. Gritaria, corre-corre. Elas sobressaltadas. Nem tempo para palavra s, para atitudes. São arrastadas morro abaixo pelo desmoronamento. A loira teria olho roxo e hematomas. A outra perdera a vida.
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