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A partir das considerações de alguns órgãos de classe e não-governamentais, fundamentadas na nota de repúdio à ação policial em Senador Camará, afirmo sem receio de estar equivocada: a pessoa mais indicada para comandar a segurança do Rio de Janeiro é J. K. Rowling. Bastaria à escritora britânica ensinar aos milhares de agentes a técnica dominada por seu Harry Potter. Para agradar quem associa incompetência e confronto ela investiria na única forma de não haver guerra entre os representantes do Estado e os traficantes. Milhões de reais, verbas públicas, devem ser direcionados à compra de capas mágicas para policiais e viaturas. Assim, desapareceriam ainda nos batalhões e ressurgiriam dentro dos paióis do tráfico. Qualquer outra alternativa, inclusive as ações baseadas nas informações coletadas pelos serviços de inteligência, está errada, segundo os especialistas. Então, torçamos pela criação da nova tropa de elite, o Batalhão de Operações Harry Potter (BOHPO).
Os senhores que lideram as polícias do Rio não transformam, como reclamam os órgãos em questão, o número de mortos em critério de eficiência. De acordo com a própria cobertura da mídia, o secretário de Estado de Segurança, José Mariano Beltrame, o comandante-geral da Polícia Militar, Ubiratan Ângelo, e o chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, indicam as apreensões, mais até do que as prisões, como grandes troféus das operações de combate ao tráfico de drogas. Cada morte deve ser lamentada, mas as baixas do tráfico são, facilmente, justificáveis: atirou, tentou matar o policial, levou um tiro e morreu. Esta seqüência é infeliz e conhecida pelos membros do crime desde a sua entrada nos escalões mais baixos dessa empresa ilegal que não costuma recusar mão-de-obra.
Quando não há reação armada, como no caso deste domingo (21/10), a obrigação constitucional da polícia é cumprida sem disparos. João Rafael da Silva, o Joca, chefe do tráfico na Rocinha, foi preso, no aeroporto de Fortaleza, no Ceará, sem uma faísca ou cheiro de pólvora. O motivo? Ele não atirou. Estava desarmado. Condição bem diferente da encontrada nas incursões realizadas para desmontar as verdadeiras fortalezas montadas na parte alta das comunidades cariocas.
Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RJ), Observatório de Favelas, Justiça Global e Grupo Tortura Nunca Mais, entre outras importantes instituições, denunciam atitudes condenáveis dos policiais como abuso de autoridade, tortura e até furtos às casas dos moradores. Contudo, raramente, surgem provas dessas acusações. Então, na era da vigilância exacerbada, por que não distribuir câmeras de fotografia e vídeo a integrantes das comunidades? Caberiam a eles os registros dos crimes e o posterior repasse às organizações que tanto os defendem. O abuso dos policiais é um assunto importante. Quando cometido, deve ser denunciado, apurado e punido com todo o rigor possível. Para isso existe a Ouvidoria da Polícia (3399-1199). Já ouviu, leu ou assistiu a um presidente de ong citar a Ouvidoria? Provavelmente, não. Porque a guerra política, para muitos deles, é mais conveniente do que a informação e a prestação de serviços.
A política da Secretaria de Estado de Segurança do Rio de Janeiro, segundo seus promotores, não é a da violência, mas, quando as forças policiais entram em certos locais para o cumprimento de mandados de busca, prisão e apreensão, são recebidas com disparos de armas pesadas. Grande parte deste armamento é de uso exclusivo do Exército e vai parar nas mãos de pessoas que não têm o mínimo compromisso com nada. Há disparos em direção à polícia e aos moradores. Infelizmente, devido a décadas de abandono social aliado à ausência de um planejamento sério no setor de segurança, a solução para o cenário atual é dura. Entretanto, é necessária porque, se não for aplicada, o futuro será ainda mais assombroso. Aí, nem o BOHPO resolverá nossos problemas.
PLANTÃO
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