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Pode-se argumentar que o tema já é velho. Lembra quando, em outubro, a turma caiu de pau sobre o Presidente da República que reclamara da certos veículos da imprensa que agiam como partidos políticos ? Manchetes e manchetinhas, celebridades e outros nem tanto - e bota nem tanto nisso - acusaram o autor da queixa de querer censurar os meios de comunicação; até de insinuar a instauração de uma ditadura, imitando algumas repúblicas da banana. Em São Paulo fizeram até passeata, com ex-ministros da Justiça encabeçando. Esqueciam que a democracia admite o falar bem e o falar mal, com suas respectivas conseqüências; uma delas, no entanto, é ouvir o que não se quer. Quem tem fôlego para dizer o que julga justo precisa ter estômago para digerir a negação do que foi dito: é o princípio do contraditório, tão esquecido pelos que se julgaram e se avaliam politicamente corretos. Ele é uma das pernas da mesa da democracia. Claro, é preciso ter brio para se ouvir o que não se quer e nem todos têm.
Agora, no raiar de novembro, a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação - CNE - tomou a decisão de recomendar o uso de notas explicativas para contextualizar expressões racistas contidas no clássico infantil Caçadas de Pedrinho, do não menos clássico Monteiro Lobato. Mesmo tendo o ministro da Educação rejeitado a proposta de imediato, a turma do gatilho rápido caiu em cima da recomendação, com respaldo do sempre útil politicamente correto. O slogan foi: Querem censurar Lobato!
Na verdade, a maioria dos democratas-de-primeira-hora nem tomou conhecimento do que havia no texto do autor que merecesse a recomendação, digamos, didática ou cívica. Você leu, recentemente, em algum lugar, transcrições das passagens usadas pelo nosso Lobato? Teve sorte, pois a maioria nem quis saber. No entanto, o bom senso pede um lembrete; pelo menos para não ficar uma posição dogmática tomada no escuro. Está lá, na voz da conhecida Emília, ao se referir a uma ameaça de ataque de animais ferozes:
- Não vai escapar ninguém - nem tia Nastácia, que tem carne preta.
Escritores renomados, personalidades do mundo acadêmico e, óbvio, do político partiram para o ataque. Todos achando que ninguém tem estatura moral para impor tal humilhação ao velho Lobato das nossas infâncias. Até o competentíssimo João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, chegou a esnobar: Não vou dedicar tempo a entender como é que foi que todos esses milhões, lendo, despreparados, livros racistas, não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e idéias nocivas, instigados solertemente na consciência indefesa de crianças...Monteiro Lobato...não precisa de mais uma defesa.(...) Não há como desconfiar dos clássicos como Lobato...Chego a ter um arrepio em ver como escapamos por pouco de termos as personalidades deformadas pela leitura irresponsável dos clássicos. (O Globo, 7/11/2010, p.7)
Por que tem que ser assim?
Quando um debate é instaurado no meio da sociedade com uma carga tão angelical do politicamente correto, o resto fica fora da discussão, até a veracidade limitada do clássico outro lado; fica difícil o surgimento de defensores de alguma posição mais racionalizada, pois o apelo do tal politicamente correto é massivo e massacrante.
Por que não se pode, nem por hipótese, admitir que Lobato seja fruto do seu tempo? Ele seria isento dos valores e preconceitos de sua própria época? Não é isso que distingue os gênios dos demais mortais. Há um princípio elaborado pelo bielo-russo Lev Vigotski - nascido antes de Monteiro e falecido antes deste: 1896-1934 - que diz: Todo inventor, até mesmo um gênio, também é fruto do seu tempo e do seu ambiente.(História da Pedagogia, vol. 2, ago. 2010, p.18). Para simplificar a conversa, os pontos são os que seguem:
. Dizer que nem tia Nastácia vai escapar das feras, por que tem carne preta não é racismo explícito?
. Não se sabe, hoje, que somos o que somos pela formação que a família e a sociedade nos deram?
. Como, em nossa formação mais tenra, poderíamos passar ilesos por idéias racistas, se até os autores mais louvados o foram?
. Não seria graças a tantas atitudes indefesas que a sanha do machismo e do racismo continua grassando generosamente entre os cidadãos adultos?
Já que mencionamos um contemporâneo de Lobato, voltemos ao legado de Vigotski, mais precisamente à teoria sociointeracionista ou sócio-histórica. Para ele - e grande parte dos estudiosos do psiquismo - o funcionamento psicológico funda-se nas relações sociais, as quais se desenvolvem no interior da cultura e em um processo histórico, isto é, de mudanças. A base genética do comportamento humano não tem um papel determinante, definitivo. Leis biológicas explicam a evolução das espécies, mas só as sócio-históricas iluminam o entendimento do desenvolver do ser humano, por meio da cultura.
Assim, os animais que carimbamos de irracionais dependem essencialmente dos programas herdados de comportamentos anteriores herdados. Nós, não; nossas características singularmente humanas são produtos de interações, em especial as culturais.
Em verdade, toda a elaboração cultural dos homens é mediada por outros que recorrem a signos e instrumentos diversos. Os exemplos, na vida em família, na vivência escolar e nos demais grupos sociais, deixam marcas profundas. Hoje a ciência não tem dúvidas quanto a isso.
Por que o racismo - naturalíssimo na época do nosso glorioso Monteiro Lobato - não responderia pelos conceitos e comportamentos racistas hoje, se algumas gerações inteiras beberam nessa rica fonte? Veja os casos freqüentes de homofobia: não seriam respostas comportamentais às lições aprendidas dos exemplos de pais e mães machões? Por que não dos programas humorísticos do rádio e da TV? Por que não dos livros, por mais clássicos que sejam?
Ao fim e ao cabo, conclui-se que não se pode simplesmente hastear a bandeira do politicamente correto para tudo. Pede-se, apenas, muita calma nessa hora. Será que sempre cabe um dogma acomodado, sem um esforçozinho da razão?
É para se pensar.
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