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29/10/2010 - 15:15h

O torcedor que cada um de nós carrega

por: Prof. João de Deus Corrêa

Envolvidos com a Política nos últimos meses, gostando ou não, alguns de nós nos surpreendemos com a radicalidade exposta por determinados indivíduos sobre posições/realizações atribuídas a algum candidato ou partido.


Ultimamente os meios de comunicação buscaram vender - não há termo mais exato que esse - suas edições, ancorados em denúncias as mais diversas. Da ex-Ministra Dilma já se falou que não tem experiência nenhuma, não gosta de homem (está na internet, há meses, uma imagem dela fumando charuto, o que seria uma evidência...) e que apóia a morte de criancinhas, segundo a sra. Serra; sem esquecer das diversas tentativas de associá-la às performances da celebridade instantânea Erenice & família (O Globo, de ago. a out/2010).


Por outro lado, do ex-Governador Serra já foi dito que mentiu ao afirmar  desconhecer um assessor/auxiliar direto, um tal de Paulo Preto, e ao assegurar que sua mulher nunca fez um aborto  (apesar de uma reportagem circular desde 11 de outubro na internet e constar de meia página da Folha de S.Paulo, uma semana depois, no mesmo mês); naturalmente, segundo tais versões, ele mente ao asseverar que nunca apoiou as privatizações e que seria o ministro que provocou a lei do defeso ( 1991).


O que se pergunta é: com qual dessas denúncias você mais se sentiu mexido? Claro que seu coração 'político' não deixará de escolher um lado para estranhar com todas as letras, repudiando esses propagadores de boatos. Certamente, por sua vez, o mesmo aparelho cardíaco pulsante elegeu um outro lado para defenestrar quem coloque em dúvida todas essas verdades contra fulano ou fulana - de quem você não gosta.

      

FICOU LOUCO?

  

Pode ser que um sentimento originário do seu senso de racionalidade esteja assoprando em sua consciência, agora, sobre a hipótese, transparente e lúcida, de que os outros (que não sintonizam com seus pontos de vista, aliás, pilares de certeza) estão loucos. Como diria um certo comentarista esportivo, até há pouco vinculado à lei da vantagem em tudo: brincadeira!


Todavia, se você for um desses raros indivíduos que se permitem - veja bem, só de vez em quando - pensar que suas escolhas poderiam estar erradas, aí sim, você está se posicionando como um ser quase limítrofe, digamos, menos normal. Por que? Ora, a ciência da neurologia acaba de ter certeza de que aquilo que apelidamos de cérebro racional (batizado de neocórtex) é especializado em tomar partido, não em buscar a isenção.


O alicerce desse nosso poder racional não é o distanciamento científico, nem o soberbo sentido de equilíbrio, ou a angelical ausência da paixão. Muito pelo contrário, o cérebro é como um presidente de um time de futebol: um torcedor assumido que se faz de advogado, que só pensa 'naquilo' - o sucesso do seu time. Passar por cima do adversário, desconsiderar as verdades do outro lado, são apenas detalhes do caminho da vitória, aliás, sempre merecida. Os trilhos desse caminho são os valores que cada indivíduo acredita serem supremos e os diversos reforçamentos que eles recebem através da vida (sempre que a experiência demonstra que seu valor é mesmo o máximo).

      

Assim, a neurociência está nos garantindo que somos loucos por um lado das coisas, dos temas, dos personagens, dos partidos, dos times, das religiões; também somos alucinados pelos princípios, pelos valores, pelas arquibancadas que vibram com o nosso coração. Sim, somos torcedores, com todas as letras, viéses, consistências e fundos musicais.


Quer dizer, então, que a racionalidade não existe? Existe, sim, mas sobre aquelas coisas, personagens, temas ou valores que não nos envolvem ou não nos interessam. Objetividade é um ideal, como um horizonte que só tem contornos concretos quando o colocamos na posição de objeto do olhar. Experimente chegar ao horizonte: ele nunca vai estar fixo naquele ponto que sua vista projetou antes. Basta chegarmos mais perto que ele se distancia até aquele lugar, ilimitado e sempre móvel, que é o limite do campo de nossa visão. Apenas isso; porque nem a ciência médica acredita mais que enxergamos com os nossos olhos; vemos mais com e no ritmo do bom e velho coração localizado no neocórtex.


Já dizia o espetaculoso Orson Welles: A única coisa verdadeira é o sonho. Leitura racional do pensamento do Welles: o estado de vigília, na verdade, é um sono só; às vezes pesadelo, às vezes um céu de brigadeiro. Mas a verdade a ser perseguida está no sonhar. O resto vai para gavetas do dispensável; parte vai para o lixo. Só. Pois o homem é a medida de todas as coisas. Basta e puncto, como diria o velho italiano.            




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