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No auge da campanha eleitoral recente, uma denúncia de propina na intermediação da compra do Tamiflu - único remédio que combatia a pandemia de H1 N1 (gripe suína) - ganhou todos os meios de comunicação do país a partir da revista Veja. Como é padrão muito próprio daquela revista, o Ministério da Saúde, o dito outro lado, não foi ouvido.
O ministro desmentiu até a possibilidade teórica da intermediação, pois o produto era de um único fabricante mundial, a Roche. Mais: o ministério havia conseguido abatimento superior a 70% no preço original. Todos os meios de comunicação noticiaram a denúncia; alguns, até a versão do ministro.
O Presidente da República achou por bem contestar: Alguns jornais e revistas se comportam como se fossem um partido político.
Foi a senha para o apedrejamento geral. Veículos, articulistas e artistas, blogs e twiteiros soltaram o verbo. Todos sintonizados no mesmo refrão: O Presidente quer calar a imprensa... De repente, formou-se um movimento para 'proteger' a liberdade de expressão no país. Gente séria participou, como se a nação corresse algum risco concreto. Alguns foram além, como o jurista Hélio Bicudo: a democracia está correndo perigo. Segundo os ex-ministros José Carlos Dias e Miguel Reale Jr.: As atitudes de Lula são de um fascista... (...) Lula age como um fascista. (Folha de S.P. 26/set.) Caetano Veloso foi categórico na função de censor, empanando sua história: Aquele negócio de Lula pensar que pode dizer tudo...não é bom. (Folha, 3/out.)
Generalizações como ' leituras' deturpadas
A mesma Folha de S.P. ostentou um raríssimo editorial na primeira página (26/set.), afirmando que Lula e a candidata oficial têm-se limitado (sic) até aqui a vituperar a imprensa...fiquem advertidos de que tentativas de controle da imprensa serão repudiadas. Qualquer governo terá que violar cláusulas pétreas da Constituição na aventura temerária de implantá-lo. (Observe-se que a candidata oficial havia afirmado que: a imprensa pode falar o que bem entender. O máximo que eu posso falar é que está errado. Segundo O Globo, 26/set. p.2)
Luiz Garcia, articulista do jornal carioca da família Marinho, assegurou: O Presidente Lula, seu partido e sua candidata consideram-se em guerra aberta com a imprensa brasileira... são rosnados palacianos. Apresentou como prova irrefutável Quando os principais veículos de comunicação do país contam a mesma história, pode-se apostar: é porque essa história existe. (O Globo, 26/set. p.7)
Além da generalização (seu partido e sua candidata - negado por esta na mesma edição do mesmíssimo jornal) e do claro dimensionamento fantasioso da fala presidencial (em guerra com a imprensa brasileira...), o respeitável jornalista do matutino carioca praticou a velha falta de memória que os jornais costumam aplicar aos brasileiros comuns. Esqueceu-se do caso Escola Base; esqueceu-se do caso ministro Alcenir Guerra, acusado - falsamente - de comprar bicicletas super faturadas; escondeu na gaveta os casos mais recentes, como o do senador Ibsen Pinheiro (1 milhão de dólares, que eram mil); falhou no registro do caso da mãe acusada por todos de matar a filha com alta dose de cocaína, quando o resíduo 'reconhecido' como droga era apenas leite em pó...A mãe foi presa, espancada e escapou milagrosamente com vida do depósito de presos. Diria o velho Nelson Rodrigues, aliás, colunista do mesmo jornal: a unanimidade é burra.
A 'imprensa' não pode ser contestada?!
Todavia, o pior de toda a guerra que se armou foi o oportunismo político armado sobre uma falsa ameaça de quebra de um princípio pétreo da Constituição. A singela ciência popular tupiniquim já consagrou dois princípios: O direito de um vai até onde começa o direito do outro e Quem diz o que quer, ouve o que não quer. Como se vê, a imprensa (ou o que se entende por esse anacronismo) não reconhece esse direito. Estaria na Lei 5.250/67, de imprensa? Não, até por extinção da lei. O seletivo e conveniente direito estaria na Constituição em vigor? Também, não.
Diante do não sumário às dúvidas acima, pode-se perguntar: o jornalismo, como os veículos e autores acima entendem, não reconhece o democrático direito à opinião contrária? Nem na longínqua época em que era correto carimbar de imprensa ao velho e sempre atual processo de contar a história à queima-roupa, quando não existiam veículos como o rádio e a TV.
A liberdade de expressão do pensamento é mais ampla, até, do que o próprio direito de informar. A primeira é reconhecida até aos loucos e mentirosos - eles podem se manifestar; o segundo - o direito de informar -tem a obrigação moral de ser objetivo, de investir em dados bem apurados, sérios e, dentro dos limites humanos, exatos.
Ao fim e ao cabo, não resta outra alternativa para a celeuma que se criou, com claras intenções eleitoreiras, de que entender uma crítica discreta, até, a alguns jornais e revistas como atitude fascista, guerra à liberdade de expressão da imprensa, não passa de uma claríssima falta de princípios democratas; evidência de radical inadequação para conviver com o contraditório - este, sim, o grande tempero da liberdade. Todas as verdades são meias verdades, já dizia Alfred N. Whiterehead.
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