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O ponto alto da Semana de Comunicação na Universidade Estácio de Sá, em Friburgo, deu-se com a palestra do jornalista e diretor financeiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Domingos Meirelles, na quinta-feira, dia 30 de outubro. O auditório estava lotado de alunos, professores e admiradores do jornalista da TV Globo.
Domingos deu início à palestra retomando fatos importantes de sua trajetória. Desde a época em que vendia máquinas de escrever até se indignar com acontecimentos decorrentes do golpe de 1964 e envolver-se com o jornalismo, no jornal de oposição Última Hora.
Ao longo de sua carreira, Domingos teve passagem pela Editora Abril, nas revistas Claudia, Capricho, Quatro Rodas e Realidade, onde conquistou o prêmio Esso, por uma edição especial sobre a Amazônia. Escreveu também para o Jornal da Tarde, O Globo e o Estado de São Paulo. Seu ingresso na TV foi em 1985, quando recebeu convite de Armando Nogueira, da Rede Globo, para atuar como repórter especial. Domingos disse ter sofrido certa hostilidade no início de sua carreira televisiva, o que foi superado com a parceria de sua equipe. Ele diz ser essencial manter “uma postura humilde e aprender a trabalhar em equipe para ter sucesso nesse veículo”.
Para os estudantes deslumbrados com a possibilidade de seguir carreira nas emissoras de TV, o jornalista sugere uma reflexão: “A televisão é uma fantasia. O momento de glória é quando a matéria é exibida. Mas nesse mesmo instante ela se dispersa. Essa glória é volátil e a memória do telespectador é curta. Já o leitor é mais curioso e sabe quem você é, pois fica mais tempo com o que você produziu.”
Defensor do jornalismo literário, Meirelles atribui seu sucesso ao desenvolvimento da técnica de manter uma visão cinematográfica ao redigir uma matéria. Seria importante saber descrever o ambiente em suas nuances, atendo-se aos detalhes físicos e psicológicos do cenário descrito. O jornalista utilizou dessa técnica para desenvolver seus dois livros: As Noites das Grandes Fogueiras, 1995 (Prêmio Jabuti em 1996) e 1930 – Os Órfãos da Revolução, 2005 (Prêmio Jabuti em 2006). Essa visão cinematográfica e a humanização dos personagens históricos tornam a leitura mais prazerosa e talvez tenham colaborado para a excelente vendagem (o primeiro encontra-se na 13ª edição, com mais de 60 mil exemplares vendidos).
O jornalista deu dicas valiosas para os futuros profissionais. Entre elas a necessidade de se estar posicionado e manter uma ideologia. “O jornalista precisa escolher um lado. Ou ele defenderá os interesses do oprimido ou estará do lado do opressor.” Para Domingos posicionar-se quanto a isso é fundamental para ter respondidos os principais questionamentos que surgirão no exercício da profissão. Isso não significaria uma manipulação da realidade, mas a capacidade de ter a percepção clara do que acontece no mundo. Com esse posicionamento definido, seria fundamental para o jornalista a humildade e pensar constantemente no outro. “Ser jornalista é um ato de permanente doação.”
Fazendo um panorama sobre o mercado de trabalho na atualidade, Meirelles fez um diagnóstico da crise que envolve a mídia impressa. Segundo ele, foram quatro os fatores que colaboraram para o cenário atual: a quebra dos meios de comunicação com o golpe de 1964, a construção de parques gráficos em 1970, o que causou endividamento das empresas jornalísticas, o distanciamento das redações do leitor e principalmente a transformação dos jornais em empresas de capital aberto.
Quando o prestígio não era mais o que estimulava a manutenção de redações, mas sim a obtenção de lucro, os jornais deixaram de serem feitos para os leitores e passaram a ser desenvolvidos para os grandes empresários. Os donos de jornais mantêm os mesmos interesses de classes, por isso encontramos jornais parecidos e com os quais o leitor não se identifica. “O jornal não pode ser tratado como um produto. É um negócio muito diferenciado, tem regras próprias que infelizmente estão sendo quebradas.”
A interação dos estudantes trouxe temas interessantes para complementar a brilhante palestra. Quando questionado sobre a sua posição quanto à obrigatoriedade do diploma, Domingos se mostrou a favor da obrigação do registro profissional e passagem pela academia. “Eu acredito e sou a favor do diploma. O jornalista deve ter um determinado perfil e o diploma é fundamental para isso.”
Através de outras reflexões importantes geradas pelo debate, Domingos manifestou sua preocupação com a dificuldade no país em lidar com a recente liberdade de expressão. “Não existe uma tradição de liberdade de imprensa.” O jornalista disse também não acreditar na imparcialidade e diz ser o conhecimento a única maneira de fazer as classes oprimidas se conscientizarem e pedirem mudanças.
Ao final da apresentação, Domingos Meirelles autografou seus livros e deu entrevistas para a TV Estácio e TV Zoom.
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